quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O teatro do comprometimento

"Socialismo é uma forma de fingir que eles estão preocupados com os pobres, enquanto criam uma elite governante poderosa em nome deles." — Thomas Sowell


A trajetória de Thomas Sowell como intelectual público é marcada por uma recusa sistemática ao pensamento de conveniência. Nascido na pobreza profunda no Sul segregado dos Estados Unidos e criado no Harlem, sua biografia — que vai de entregador de jornais e operário de fábrica a doutor em economia por University of Chicago sob a tutela de George Stigler — confere ao seu ceticismo institucional uma espessura empírica rara. Ele não aborda as políticas públicas pelo prisma das intenções declaradas pelos formuladores, mas pelos incentivos reais que elas geram e pelos resultados efetivos que produzem no chão da realidade.


 

A frase escolhida sintetiza o eixo central da crítica sowelliana ao planejamento central e ao intervencionismo estatal: a desconfiança em relação à "visão não restrita" da natureza humana.

Para Sowell — especialmente em obras como Conhecimento e Decisões e Os Visionários —, a retórica igualitária opera frequentemente como um mecanismo de legitimação de poder para uma elite tecnocrática. Os pontos cruciais dessa análise desdobram-se em três frentes:

  • A falácia das intenções versus resultados: Sowell argumenta incessantemente que o debate político é dominado por aqueles que julgam as políticas pelas intenções de quem as propõe, e não pelos incentivos que criam. Sob a ótica socialista, o foco recai sobre o objetivo proclamado (erradicação da pobreza, igualdade), ignorando os efeitos colaterais destrutivos sobre a produção, o emprego e a autonomia individual.

  • A concentração de poder na tecnocracia: Ao transferir decisões econômicas e sociais do mercado descentralizado para o Estado, o socialismo inevitavelmente concentra poder nas mãos de burocratas e planejadores. Para Sowell, essa elite governante assume um papel paternalista e coercitivo, decidindo a vida alheia sob o pretexto de agir "em nome dos pobres", mas criando, na prática, uma nova classe de privilegiados intocáveis pelas próprias regras que impõem.

  • O conhecimento disperso: Retomando a tradição da Escola Austríaca de Economia (particularmente Friedrich Hayek), Sowell enfatiza que o conhecimento necessário para coordenar uma sociedade é vasto, fragmentado e impossível de ser centralizado em uma mente ou comitê. Quando uma elite tenta planejar a vida econômica, o fracasso é inevitável — e a resposta para esse fracasso costuma ser, historicamente, a intensificação da coerção estatal.

A força do pensamento de Sowell reside justamente em despir a política de seus adornos emocionais, substituindo a narrativa edificante pelo rigor da análise de custos e consequências.


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