“Não busque o sucesso. Quanto mais você se obcecar por ele e o transformar em seu objetivo, mais irá perdê-lo. Porque o sucesso, assim como a felicidade, não pode ser perseguido; deve surgir naturalmente, e só aparece como consequência não intencional da dedicação pessoal a uma causa maior do que si mesmo ou como resultado da entrega a outra pessoa. A felicidade deve acontecer, e o mesmo vale para o sucesso: é preciso permitir que surjam, sem se preocupar com eles. Ouça o que sua consciência lhe diz e siga isso da melhor forma possível. Então você verá que, a longo prazo — a longo prazo, insisto —, o sucesso virá justamente porque você deixou de pensar nele.” - Viktor Frankl
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O turbocapitalismo — termo cunhado por Edward Luttwak para descrever uma fase de livre mercado desenfreado, desregulado e globalizado — transformou a própria existência humana em uma mercadoria de alto rendimento. Nesse cenário, o sucesso deixou de ser o resultado circunstancial de um trabalho bem feito e foi promovido ao status de imperativo categórico e obsessão permanente. A lógica concorrencial do mercado colonizou a intimidade, fazendo com que o valor de um indivíduo seja medido quase exclusivamente por sua produtividade, status e métricas visíveis de conquista. A vida torna-se um infindável portfólio de desempenho, onde o descanso é visto como falha moral e a estagnação, como fracasso existencial.
É exatamente contra essa tirania do desempenho que ressoa a reflexão de Viktor Frankl. Para o psiquiatra e pensador existencial, a busca direta pelo sucesso é uma armadilha autorreferente que o corrói: "Não busque o sucesso. Quanto mais você se obcecar por ele e o transformar em seu objetivo, mais irá perdê-lo". Frankl identifica a contradição fundamental da hipermodernidade: ao transformarmos o sucesso em um alvo a ser caçado, esvaziamos o sentido da ação que deveria produzi-lo. O sucesso e a felicidade não toleram a coisificação; eles são fenômenos de contrassenso, frutos indiretos de uma entrega genuína a algo que transcende o ego.
A tese frankliana propõe que tais estados só aparecem como "consequência não intencional da dedicação pessoal a uma causa maior do que si mesmo ou como resultado da entrega a outra pessoa". Em um sistema moldado pelo individualismo competitivo do turbocapitalismo, essa proposição soa quase revolucionária. O mercado exige que cada ação seja utilitária e calculada em prol de um retorno pessoal, enquanto Frankl argumenta que a verdadeira realização exige o esquecimento de si. Quando o indivíduo se absorve por uma vocação, por uma obra, pelo cuidado com o outro ou por convicções éticas profundas, a ânsia pelo reconhecimento desvanece, abrindo espaço para que o êxito autenticamente aconteça.
A exigência de viver sob o tacão da hiperprodutividade gera uma sociedade exausta, aprisionada naquilo que Byung-Chul Han denominou sociedade do cansaço, onde o sujeito se explora a si mesmo sob a ilusão de estar realizando a sua liberdade. Recuperar a sabedoria de ouvir o que a consciência dita — e segui-la sem a paranoia do resultado imediato — é um ato de resistência contra essa aceleração sistêmica. Ao aceitar que a felicidade e o sucesso devem apenas "acontecer, sem se preocupar com eles", resgata-se a dimensão qualitativa da existência, lembrando que a vida humana vale pelo que tem de sentido intrínseco, e não apenas pelo saldo de suas vitórias mensuráveis.
Citados
Viktor Emil Frankl (Viena, 26 de março de 1905 — Viena, 2 de setembro de 1997) foi um neuropsiquiatra austríaco. Conhecido por seu best-seller “Em Busca de Sentido”, onde descreve suas experiências em quatro campos de concentração nazistas, foi o fundador da logoterapia, abordagem psicoterapêutica baseada na busca de um sentido para a vida.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Viktor_Frankl
Edward Nicolae Luttwak (Arad, Romênia, 4 de novembro de 1942) é um estrategista militar, cientista político e historiador estadunidense. Publicou obras sobre estratégia militar, história e relações internacionais. — https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Luttwak
Byung-Chul Han (Pyong-Chol Han) (Seul, 1959) é um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim. Ele estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Atualmente, é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim e autor de uma dezena de ensaios de críticas à sociedade do trabalho e à tecnologia. — https://pt.wikipedia.org/wiki/Byung-Chul_Han
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