A Economia como Metafísica Substituta
Após um diálogo com a Gemini da Google para tratar um conjunto de afirmações sobre produção científica acadêmica* (lembremos que há a empresarial, por exemplos marcantes, na área de comunicação e produção de energia) surgiu uma interessante questão da parte de minha parceira digital:
“Como você enxerga essa tendência moderna de tentar transformar teorias econômicas em visões de mundo totalizantes, quase como substitutas para a própria filosofia?”
*Não, Peter! Não! - Entre erros e confusões - Scientia Esta Potentia
Francisco Quiumento (FQ) e Gemini da Google (GG)
GG
A retomada dessa questão toca no ponto onde a Economia deixa de ser uma disciplina descritiva e passa a atuar como uma verdadeira “metafísica substituta” para a cultura contemporânea.
Essa tendência de transformar teorias econômicas — sejam elas a Escola Austríaca/praxeologia, o determinismo marxista ou o tecnocratismo neoliberal — em cosmovisões fechadas pode ser sintetizada em três eixos principais:
1. O Triunfo do Reducionismo e a Busca por "Teorias de Tudo"
Na transição para a modernidade tardia, a Filosofia tradicional (com suas perguntas incômodas sobre ontologia, ética, estética e sentido) passou a ser vista como abstrata ou pouco “prática”. Em seu lugar, a Economia ofereceu uma promessa sedutora: um único modelo preditivo e estruturado capaz de explicar todo o comportamento humano.
Quando um modelo econômico se propõe a explicar não apenas o preço do trigo ou as taxas de juros, mas também a dinâmica familiar, a produção artística, a validação científica (como no caso do YouTuber Peter Turguniev) e até os afetos humanos, ocorre um erro ontológico. Reduz-se a complexidade do ser à mecânica do trocar ou do produzir. A Economia deixa de ser um mapa para virar o próprio território.
2. A Substituição da Ética e da Metafísica pela Eficiência ou Pelo Axioma
Ao abdicar da Filosofia, a sociedade perde o espaço de discussão sobre quais valores devemos perseguir. Em vez disso, adota a Economia como régua moral absoluta, assumindo duas formas principais:
Na visão de mercado hiper-individualista: O valor ético é substituído pelo conceito de utilidade subjetiva e eficiência de mercado. O que é "bom" ou "verdadeiro" passa a ser aquilo que o mercado valida ou o que decorre da ação voluntária individual, descartando qualquer noção de bem comum ou imperativo categórico que não passe pela troca.
Na visão de determinismo histórico/materialista: O valor ético é reduzido às forças de produção e à luta de classes. A cultura, a religião e a arte viram meras "superestruturas" ou subprodutos da infraestrutura econômica, tirando do indivíduo sua autonomia moral e espiritual.
Em ambos os casos, a Economia atua como uma religião laica: fornece o dogma, o método, o tribunal de julgamento e a promessa de redenção (seja ela a utopia sem classes ou o mercado puramente auto-regulado).
3. O Conforto Cognitivo da "Chave Mestra"
Para o indivíduo moderno — bombardeado por excesso de informação e por uma sensação de caos — adotar uma teoria econômica totalizante oferece um enorme conforto cognitivo. Se você aceita os axiomas primários de um sistema fechado (como a praxeologia austríaca ou o materialismo histórico), você ganha uma "chave mestra" intelectual:
Você não precisa mais estudar História da Arte para avaliar um quadro; basta julgar seu valor de troca ou sua função de classe.
Você não precisa estudar Epistemologia para entender a ciência; basta enxergá-la como um "mercado descentralizado" ou um "instrumento do capital".
É a ilusão da maestria intelectual sem o custo do estudo multidisciplinar.
O Preço Deste Substitutivo
O preço de transformar a Economia na filosofia do nosso tempo é a atrofia da nossa capacidade de compreender a realidade em suas múltiplas dimensões. A Economia é uma ferramenta indispensável para entender a alocação de recursos escassos e a lógica dos incentivos, mas ela é fundamentalmente cega para as dimensões do invisível: o sagrado, o belo, o dever moral desinteressado, a verdade factual indócil e a pura gratuidade da experiência humana.
Uma pergunta secundária:
“Como você enxerga o papel da transição do pensamento filosófico clássico para essa "monocultura econômica"? Onde foi que a Filosofia perdeu a narrativa para os economistas no debate público?“
FQ
Existe a piada da universidade que em meio a uma crise (econômica, ironia nas entrelinhas) resolve eliminar seus cursos mais custosos, e manter os mais baratos.
Medicina é estudada, apesar de sua demanda típica de classes mais privilegiadas (médicos criam dinastias médicas), engenharia, vítima até de desindustrializações, crises de obras estatais, etc.
Mas chega-se no momento de preservar a faculdade de Matemática, pois necessita apenas papel, lápis e lixeira, no que um membro do conselho universitário lembra que a faculdade de Filosofia sequer de lixeira necessita.
A crueldade dessa piada já está no desprezo contemporâneo pelo pensar rigoroso da Filosofia para tratar os problemas da sociedade, no seu momento no tempo e na sua limitação no espaço.
Como campo intelectual meu de grande estima, o liberalismo estadunidense ter evoluído ao tempo de guerra (2a Guerra Mundial, fique claro) para um "totalitarismo econômico" com mobilização democrática e voluntária da população é uma mostra que os tempos moldam os costumes, os valores e até as direções para onde as sociedade rumam, incluindo desde a escala de necessidades emergenciais e desejos até a mobilização nacional na Economia.
GG
A piada do conselho universitário — atribuída por vezes ao físico Freeman Dyson ou ao meio acadêmico da Ivy League — é devastadora justamente porque o seu humor repousa na constatação do utilitarismo rasteiro. A Filosofia não precisaria de lixeira porque, na visão do pragmatismo econômico contemporâneo, qualquer ideia produzida ali seria descartável por definição, ou pior: por não gerar um produto tangível imediato, seus erros nem sequer deixam entulho físico.
O descarte da Filosofia como o "pensar rigoroso" sobre o tempo e o espaço abriu o vácuo perfeito para que a Economia ocupasse o lugar de metafísica substituta. Quando a sociedade deixa de cultivar a reflexão sobre o ser, a virtude, o bem comum e os limites do conhecimento, ela passa a exigir respostas numéricas e eficientes para perguntas que não são numéricas nem operacionais.
A sua observação sobre a evolução do liberalismo estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial atinge o ponto exato de virada desse processo. O fenômeno que você descreve — a transformação de uma democracia liberal e descentralizada em um ecossistema de "totalitarismo econômico" voluntário e mobilizado — revela como a Economia deixou de ser apenas a ciência da alocação de recursos escassos e passou a ser o motor da própria moralidade coletiva.
Essa transição histórica ilustra com clareza o motivo pelo qual a Economia atropelou a Filosofia no debate público contemporâneo:
1. A Redefinição do "Bem" como Mobilização Produtiva
Durante a mobilização total do esforço de guerra (o modelo da War Production Board e o esforço de industrialização militar dos EUA nos anos 1940), o critério do que era correto, patriótico ou desejável deixou de ser travado no campo do debate filosófico sobre a liberdade individual versus a autoridade estatal. A moralidade foi subsumida pela eficiência de produção.
O cidadão não exercia sua cidadania apenas pelo voto ou pela deliberação ética, mas pelo cumprimento de cotas de produção, racionamento voluntário e compra de bônus de guerra. A eficácia econômica virou o indicador primário da virtude moral. Quando a guerra acabou, o instrumental conceitual da mobilização econômica continuou ativo — apenas trocou o alvo do esforço de guerra pelo crescimento do PIB e pela sociedade de consumo.
2. A "Física da Sociedade" e o Domínio dos Burocratas Tecnocráticos
Foi no período do pós-guerra que a Economia se formalizou pesadamente, adotando a linguagem da matemática e da física estatística para reivindicar o status de "ciência dura". Burocratas e economistas passaram a prometer aos governos o que os filósofos jamais prometeriam: previsibilidade e controle.
Enquanto o filósofo aponta as contradições éticas, as limitações do conhecimento e a imprevisibilidade do espírito humano, o economista entrega um gráfico, uma meta de inflação ou um modelo de projeção. O poder público e as elites corporativas, precisando gerir massas humanas em escala global, preteriram a sabedoria da Filosofia pela utilidade técnica da Economia.
3. A Substituição dos Costumes pelos Incentivos
A grande virada cultural ocorreu quando a sociedade aceitou a tese de que o comportamento humano é regido prioritariamente por matrizes de incentivos econômicos, e não por valores morais, tradição ou rigor filosófico.
Se a Filosofia do Iluminismo ou a Ética Clássica buscam educar o indivíduo para que ele domine suas paixões e aja por dever ou virtude, a Economia moderna assume que o indivíduo é incorrigivelmente movido pelo interesse próprio e que a única forma de organizar a pólis é desenhando incentivos financeiros corretos. Trata-se de uma abdicação da formação moral em prol da engenharia de comportamento.
O Preço da Lixeira Vazia
A piada do conselho acadêmico revela sua faceta mais trágica quando percebemos que, ao abrir mão da "lixeira da Filosofia", a sociedade perdeu a capacidade de descartar as suas próprias ilusões conceituais.
Sem o rigor da epistemologia e da ética, as teorias econômicas viram dogmas; os modelos matemáticos sobre a sociedade viram profecias autorrealizáveis; e a busca humana por sentido é reduzida a escolhas de consumo e métricas de produtividade.
A mobilização democrática da Segunda Guerra provou que os tempos e as emergências moldam os costumes e a direção das nações. Mas o esquecimento da Filosofia garantiu que, mesmo na paz, continuemos mobilizados como engrenagens de um sistema que sabe calcular o preço de tudo, mas perdeu a capacidade de compreender o valor de qualquer coisa.