terça-feira, 22 de setembro de 2026

Um alerta de Arthur Laffer - parte 2

Earned Income Tax Credit (EITC) 


O Earned Income Tax Credit (EITC, “Crédito Tributário por Renda do Trabalho”), criado nos Estados Unidos na década de 1970 e expandido por sucessivas administrações, é um dos programas de combate à pobreza mais estudados da economia moderna. Ele foi desenhado especificamente para lidar com o dilema apontado por Arthur Laffer: como oferecer assistência financeira às famílias de baixa renda sem destruir os incentivos para o trabalho formal. 

  

O Conceito: Um Imposto de Renda Negativo

Diferente da assistência social tradicional (que paga um valor fixo e o reduz à medida que a pessoa passa a ganhar renda), o EITC funciona como um crédito tributário reembolsável.

Isso significa que, se o valor do crédito a que o trabalhador tem direito for maior do que o imposto de renda devido por ele, o governo paga a diferença em dinheiro no momento da restituição. Na prática, o trabalhador recebe um "subsídio ao salário".

Como Funciona na Prática: A Estrutura em 3 Fases

O valor do EITC varia conforme a renda familiar e o número de dependentes. Sua estrutura é composta por três fases bem definidas:


  1. Fase de Incentivo (Phase-in): Para cada dólar que a pessoa ganha trabalhando (desde o primeiro dólar), o crédito aumenta em uma taxa percentual (que pode chegar a 40% ou mais para famílias com vários filhos). Quanto mais a pessoa trabalha e ganha nessa faixa, maior é o benefício do governo.

  2. Fase Plana (Plateau): O crédito atinge seu valor máximo e permanece constante em uma determinada faixa de renda. O incentivo para permanecer no mercado de trabalho continua alto, pois o benefício não é cortado ao ganhar um pouco mais.

  3. Fase de Redução Gradual (Phase-out): Conforme a renda continua subindo e a família se aproxima da classe média, o crédito diminui gradualmente (por exemplo, perde-se cerca de $0,15 a $0,21 para cada dólar adicional ganho).

Como o EITC Resolve a Armadilha da Pobreza

A "armadilha da pobreza" ocorre quando a alíquota marginal efetiva de imposto/perda de benefício ultrapassa 100%. Em programas assistenciais comuns, ganhar R$ 100 a mais no trabalho pode fazer o cidadão perder R$ 150 em auxílios governamentais (como vale-alimentação, auxílio-moradia ou saúde), tornando irracional buscar um emprego formal.

O EITC desarma essa armadilha por meio de três mecanismos centrais:

  • Inverte a Lógica do Subsídio: Em vez de pagar para quem não trabalha, o EITC exige expressamente que a pessoa tenha renda do trabalho (earned income). Quem não trabalha, não recebe nada do EITC.

  • Elimina o "Abismo" (Cliff Effect): Por conta do phase-out gradual, ganhar um dólar extra no trabalho nunca faz a pessoa perder mais de um dólar em benefícios. A renda líquida total (salário + EITC) sempre cresce conforme o esforço de trabalho aumenta.

  • Reduz o Custo da Formalização: Ao complementar os salários de postos de entrada e de menor qualificação, o EITC atua como um incentivo para que o trabalhador aceite empregos formais, acumule experiência e, eventualmente, progrida para faixas salariais mais altas onde o subsídio não seja mais necessário.

Em suma, o EITC transforma a assistência social de um "desincentivo ao esforço" em uma ferramenta de integração ao mercado, respondendo diretamente à crítica de Laffer ao alinhar a solidariedade do Estado à lógica dos incentivos econômicos.

Earned Income Tax Credit (EITC) x Renda Básica Universal (RBU)

A principal diferença entre o Earned Income Tax Credit (EITC) e a Renda Básica Universal (RBU) reside na condicionalidade do benefício: o EITC premia a participação no mercado de trabalho formal, enquanto a RBU garante um piso financeiro incondicional a todos os cidadãos, independentemente de renda ou ocupação.

Comparativo Estrutural


Dimensão

Earned Income Tax Credit (EITC)

Renda Básica Universal (RBU)

Público-alvo

Trabalhadores de baixa renda (foco focalizado).

Todos os cidadãos (universal).

Exigência de Trabalho

Sim. É necessário ter renda proveniente do trabalho.

Não. Concedida sem exigências ou contrapartidas.

Custo Fiscal

Baixo a Moderado. Apenas uma fração da população recebe.

Muito Alto. Exige elevada arrecadação tributária.

Efeito no Emprego

Estimula a entrada no mercado formal de trabalho.

Neutro ou incerto (pode permitir pausas/estudos).

Estigma Social

Baixo, pois é visto como restituição de imposto/fruto do trabalho.

Praticamente nulo, por ser um direito universal.


Vantagens e Desvantagens do EITC

Vantagens

  • Preservação dos Incentivos Econômicos: Alinha-se diretamente ao alerta de Arthur Laffer, pois exige que o indivíduo trabalhe para receber a complementação governamental.

  • Eficiência Fiscal: Por ser estritamente focalizado nos trabalhadores de menor renda, exige muito menos receita do Estado para gerar impacto significativo na redução da pobreza.

  • Combate à InformaIidade: Cria um incentivo financeiro direto para que trabalhadores informais busquem empregos com carteira assinada ou declarem suas rendas para acessar o benefício.

Desvantagens

  • Exclusão dos Vulneráveis Extremos: Não protege indivíduos incapazes de trabalhar (pessoas com deficiências severas, cuidadores em tempo integral sem remuneração ou desempregados de longa duração).

  • Complexidade Burocrática: Exige a entrega de declarações de imposto de renda e auditoria contínua, o que gera erros de preenchimento e deixa de fora pessoas que não sabem como solicitar o crédito (take-up rate incompleto).

  • Dependência do Ciclo Econômico: Em momentos de recessão profunda, quando faltam postos de trabalho, o EITC perde eficácia exatamente para quem mais precisa.

Vantagens e Desvantagens da RBU

Vantagens

  • Rede de Proteção Sem Brechas: Garante que absolutamente ninguém caia abaixo da linha de extrema pobreza, servindo de colchão em crises financeiras ou automação de postos de trabalho.

  • Simplicidade Administrativa: Elimina a burocracia de fiscalização de renda e cadastros complexos, reduzindo custos operacionais do Estado e fraudes.

  • Autonomia Individual: Concede ao indivíduo a liberdade de usar o tempo para se qualificar, empreender, cuidar de familiares ou recusar empregos precários e abusivos.

Desvantagens

  • Custo Fiscal Elevado: Para pagar um valor digno a toda a população, a RBU exige aumentos substanciais de impostos sobre a classe média e sobre as empresas, com potencial de gerar distorções econômicas.

  • Risco de Redução do Trabalho: Ao desvincular a renda do esforço produtivo, pode levar parte da população a reduzir horas trabalhadas ou abandonar voluntariamente a força de trabalho.

  • Transferência Ineficiente para Quem Não Precisa: Pagar um subsídio estatal para pessoas de renda altíssima exige arrecadar impostos dessas mesmas pessoas para devolver em forma de benefício, gerando ineficiência.

Em síntese, a escolha entre os dois modelos reflete prioridades políticas e visões de sociedade distintas: o EITC prioriza a eficiência fiscal e o incentivo ao trabalho, enquanto a RBU prioriza a erradicação imediata da extrema pobreza e a segurança existencial incondicional.

Propostas híbridas

Existem diversas propostas econômicas que visam unir o piso de proteção social incondicional da Renda Básica Universal (RBU) à preservação do incentivo ao trabalho e à focalização fiscal do Earned Income Tax Credit (EITC).

Esses modelos híbridos tentam responder ao dilema histórico: como garantir que ninguém passe fome sem criar um desincentivo para que as pessoas busquem uma colocação produtiva.

1. Imposto de Renda Negativo (NIT) de Milton Friedman

Desenvolvido pelo economista de mercado Milton Friedman na década de 1960, o Imposto de Renda Negativo (Negative Income Tax) é o modelo híbrido mais clássico e a fundação conceitual tanto do EITC quanto da RBU modernizada.

  • Como funciona: Estabelece-se uma linha de renda de corte (isenta de impostos). Quem ganha acima dessa linha paga impostos normais; quem ganha abaixo da linha recebe um subsídio do governo proporcional ao "déficit" de renda.

  • O elemento da RBU: Garante um piso de renda mínimo incondicional para quem ganha zero.

  • O elemento do EITC: Aplica uma alíquota marginal moderada (ex: 50%) sobre os ganhos adicionais. Se uma pessoa ganha R$ 100 no trabalho, ela não perde R$ 100 de benefício; perde apenas R$ 50, garantindo que trabalhar sempre compensa.

2. Renda Básica Gradual com Fase de Complementação (Phase-In)

Propagada por economistas sociais contemporâneos, essa proposta adapta a estrutura em curvas do EITC para incluir uma garantia incondicional na base.



  • Como funciona: Todo cidadão recebe um valor base fixo (RBU) no início de cada mês, independentemente de estar trabalhando ou não. No entanto, se o cidadão ingressar no mercado formal de trabalho em faixas salariais baixas, ele recebe um bônus proporcional ao salário (estilo EITC), aumentando ainda mais sua renda líquida.

  • Por que combina os dois: A RBU base elimina a exclusão dos vulneráveis extremos (que não conseguem trabalhar), enquanto o bônus estilo EITC recompensa quem entra no mercado formal de trabalho e evita o abismo fiscal.

3. Renda Básica Universal Dividida em Dois Pisos

Esta abordagem divide a renda básica em duas camadas administrativas operadas via sistema tributário:

  • Piso 1 (Universal / Incondicional): Um valor menor, voltado estritamente à subsistência (coberta pela RBU para 100% da população, eliminando a burocracia do cadastro).

  • Piso 2 (Suplemento de Atividade / EITC): Um crédito fiscal adicional pago apenas àqueles que comprovam renda do trabalho, estágio, estudos ou participação em programas de formação profissional e voluntariado comunitário.

  • Objetivo: Garantir a dignidade mínima sem sobrecarregar o orçamento público com transferências elevadas e incondicionais para todos, concentrando o esforço financeiro do Estado em dinamizar a economia local.

Comparativo dos Modelos Híbridos



Modelo

Como trata quem não trabalha

Como trata quem trabalha

Viabilidade Fiscal

EITC Puro

Não paga nada.

Paga um subsídio crescente até certo limite.

Muito Alta

RBU Pura

Paga o valor integral.

Paga o valor integral (sem alteração do benefício).

Muito Baixa

Imposto Negativo (NIT)

Paga um benefício base reduzido.

Reduz o benefício gradualmente à medida que a renda sobe.

Moderada

RBU + Bônus EITC

Paga a RBU base.

Paga a RBU base + Bônus proporcional ao trabalho.

Média-Baixa


Desafios Práticos das Propostas Híbridas

Embora ideais no papel, a implementação prática desses modelos enfrenta dois grandes gargalos:

  1. Ajuste Fino de Alíquotas: Se o benefício base for muito alto, o custo fiscal aproxima-se do da RBU e inviabiliza o orçamento público. Se for muito baixo, não protege os extremamente vulneráveis.

  2. Capacidade de Fiscalização Tributária: Modelos híbridos exigem que o Estado monitore em tempo real a renda das famílias para aplicar os créditos ou reduções graduais, o que requer uma infraestrutura digital e tributária altamente integrada.

domingo, 20 de setembro de 2026

Um alerta de Arthur Laffer - parte 1

Se você tributar quem trabalha e pagar quem não trabalha, não se surpreenda se acabar com muita gente desempregada.” — Arthur Laffer


A frase do economista norte-americano Arthur Laffer sintetiza, em linguagem direta, um dos princípios mais debatidos da economia política: o impacto das escolhas tributárias e assistenciais no comportamento humano. Famoso por formular a "Curva de Laffer" — que ilustra como alíquotas impostas em excesso podem desestimular a atividade econômica e ironicamente reduzir a arrecadação —, a provocação de Laffer alerta para a criação de um sistema perverso de incentivos.


 

A Dinâmica dos Incentivos Negativos

No coração da análise econômica comportamental está a premissa de que os indivíduos reagem aos custos e benefícios marginais de suas escolhas. Quando o Estado eleva desproporcionalmente a tributação sobre o trabalho e a produção, o retorno líquido da atividade laboral diminui. Por outro lado, se a assistência social for estruturada de forma a compensar a inatividade sem mecanismos adequados de transição para o mercado, o custo de oportunidade de trabalhar aumenta.

Essa combinação pode gerar a chamada "armadilha da pobreza":

  • Redução da Oferta de Trabalho: A renda líquida ganha ao ingressar em um emprego formal de entrada pode ser inferior ou pouco superior ao benefício total recebido do governo, anulando o incentivo financeiro para trabalhar.

  • Fuga para a Informabilidade: Alíquotas altas sobre a folha de pagamento desestimulam formalizações, empurrando empregadores e trabalhadores para o mercado informal.

  • Efeito Desmotivação: Quem gera valor sente-se punido pelo esforço, enquanto quem não produz é compensado pela inatividade, distorcendo o pacto social.

O Dilema do Estado de Bem-Estar Social

O ponto de Laffer não sugere a eliminação completa da seguridade social ou a ausência de tributos. A proteção social é fundamental para mitigar a extrema pobreza, atuar em momentos de crise individual e oferecer igualdade de oportunidades.

O verdadeiro desafio reside no desenho das políticas públicas:


Modelo Problemático

Modelo Sustentável

Retirada abrupta do benefício ao conseguir emprego.

Transição gradual do benefício conforme a renda do trabalho cresce (ex: Earned Income Tax Credit).

Altas alíquotas marginais sobre salários de baixa renda.

Isenção ou desoneração da folha para postos de menor qualificação.

Foco exclusivo em transferência de renda sem condicionalidades de formação.

Integração entre apoio financeiro, capacitação profissional e acesso ao mercado.


Conclusão: Equilíbrio Entre Eficiência e Solidariedade

O alerta de Arthur Laffer permanece crucial para qualquer sociedade que busque o equilíbrio fiscal e a justiça social. Tributar o trabalho é necessário para financiar serviços públicos essenciais, assim como apoiar os vulneráveis é um imperativo ético. Contudo, ignorar como impostos e subsídios afetam as decisões individuais é o caminho mais rápido para estagnação e desemprego estrutural. Políticas eficientes não devem punir quem produz, mas sim construir pontes para que mais pessoas possam produzir e prosperar por conta própria.


sábado, 19 de setembro de 2026

Frações em conflito

O debate político contemporâneo raramente decorre de simples divergências de opinião; ele é o sintoma de um atrito estrutural entre grupos que habitam realidades econômicas e temporais completamente distintas. De um lado da equação social, encontram-se aqueles que operam sob a tirania do tempo como denominador: empreendedores, produtores e trabalhadores do setor privado que enfrentam a incerteza diária, o risco de mercado e a escassez de recursos, onde o erro custa a própria subsistência e a geração genuína de riqueza. Do outro, forma-se uma aliança simbiótica entre uma burocracia estatal protegida por salários garantidos — que acumulam excedentes à custa do erário público — e uma massa de baixa renda mantida sob a tutela de assistencialismos.


Para a sobrevivência desse arranjo de poder, a perpetuação da dependência e a desestruturação educacional tornam-se ferramentas deliberadas, garantindo que o numerador da máquina pública continue a extrair sua renda sem prestar contas ao mundo real da produção. Nesse cenário, as "frações em conflito" revelam que a polarização não é um acidente retórico, mas o choque inevitável entre os que carregam o peso do mundo nas costas e os que transformaram a gestão da pobreza alheia em seu modelo corporativo de privilégio.

O beneficiário do caos

Nessa equação fraturada, surge a figura central do demagogo: o populista que não busca solucionar o atrito, mas alimentá-lo e metabolizá-lo em poder político perpétuo. Ele se posiciona cinicamente como o defensor dos vulneráveis enquanto surfa na ruína educacional que mantém a base dependente, e ao mesmo tempo extrai o sustento do próprio aparato estatal que expande sem freios. Operando como o grande parasita do conflito, o demagogo alimenta-se eleitoralmente tanto da revolta legítima de quem carrega o fardo da produção quanto da inércia acomodada da burocracia e da massa assistida, convertendo a polarização sistêmica em um monopólio de controle absoluto.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Visões em colisão

A teoria dos conflitos sociais de Sowell — desvendada em sua obra monumental Conflict of Visions — oferece uma das chaves mais profundas para entender por que o debate político contemporâneo parece tão impermeável ao diálogo racional.



 

Para Sowell, os desacordos políticos profundos não decorrem apenas de interesses divergentes ou de falta de informação, mas de visões de mundo fundamentalmente opostas sobre a natureza humana e as limitações do homem. Ele divide essas visões em duas grandes categorias:

  • A visão não restrita: Concebe o homem como um ser maleável, cujas imperfeições morais e sociais são frutos de instituições defeituosas ou da escassez material. Para esta visão (típica do pensamento utópico, progressista e socialista), os problemas do mundo têm soluções intencionais e racionais. Se algo está errado, é porque os detentores do poder falharam ou porque a maldade intencional de alguns obstrui a justiça. Daí nasce a urgência de planejar a sociedade de cima para baixo.

  • A visão restrita: Enxerga o homem como um ser inerentemente limitado, falível e incorrigível em sua essência. As falhas humanas são fatos permanentes da condição, e não acidentes históricos curáveis por engenharia social. Por isso, a visão restrita aposta em processos sistêmicos (como o livre mercado, a tradição, o direito consuetudinário e a separação de poderes) em vez de confiar na sabedoria ou na moralidade de salvadores da pátria. Para Sowell, a ordem social funcional não é desenhada por mentes brilhantes, mas emerge de arranjos evolutivos que aprenderam a lidar com o egoísmo e a escassez.

O choque entre essas duas visões gera o que ele chama de "conflito de visões": enquanto um lado busca a erradicação dos males por meio da força coercitiva do Estado (as intenções), o outro busca minimizar os danos inevitáveis da natureza humana por meio de incentivos e regras estáveis (os resultados).


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O teatro do comprometimento

"Socialismo é uma forma de fingir que eles estão preocupados com os pobres, enquanto criam uma elite governante poderosa em nome deles." — Thomas Sowell


A trajetória de Thomas Sowell como intelectual público é marcada por uma recusa sistemática ao pensamento de conveniência. Nascido na pobreza profunda no Sul segregado dos Estados Unidos e criado no Harlem, sua biografia — que vai de entregador de jornais e operário de fábrica a doutor em economia por University of Chicago sob a tutela de George Stigler — confere ao seu ceticismo institucional uma espessura empírica rara. Ele não aborda as políticas públicas pelo prisma das intenções declaradas pelos formuladores, mas pelos incentivos reais que elas geram e pelos resultados efetivos que produzem no chão da realidade.


 

A frase escolhida sintetiza o eixo central da crítica sowelliana ao planejamento central e ao intervencionismo estatal: a desconfiança em relação à "visão não restrita" da natureza humana.

Para Sowell — especialmente em obras como Conhecimento e Decisões e Os Visionários —, a retórica igualitária opera frequentemente como um mecanismo de legitimação de poder para uma elite tecnocrática. Os pontos cruciais dessa análise desdobram-se em três frentes:

  • A falácia das intenções versus resultados: Sowell argumenta incessantemente que o debate político é dominado por aqueles que julgam as políticas pelas intenções de quem as propõe, e não pelos incentivos que criam. Sob a ótica socialista, o foco recai sobre o objetivo proclamado (erradicação da pobreza, igualdade), ignorando os efeitos colaterais destrutivos sobre a produção, o emprego e a autonomia individual.

  • A concentração de poder na tecnocracia: Ao transferir decisões econômicas e sociais do mercado descentralizado para o Estado, o socialismo inevitavelmente concentra poder nas mãos de burocratas e planejadores. Para Sowell, essa elite governante assume um papel paternalista e coercitivo, decidindo a vida alheia sob o pretexto de agir "em nome dos pobres", mas criando, na prática, uma nova classe de privilegiados intocáveis pelas próprias regras que impõem.

  • O conhecimento disperso: Retomando a tradição da Escola Austríaca de Economia (particularmente Friedrich Hayek), Sowell enfatiza que o conhecimento necessário para coordenar uma sociedade é vasto, fragmentado e impossível de ser centralizado em uma mente ou comitê. Quando uma elite tenta planejar a vida econômica, o fracasso é inevitável — e a resposta para esse fracasso costuma ser, historicamente, a intensificação da coerção estatal.

A força do pensamento de Sowell reside justamente em despir a política de seus adornos emocionais, substituindo a narrativa edificante pelo rigor da análise de custos e consequências.


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O sucesso como obsessão no “turbocapitalismo”

“Não busque o sucesso. Quanto mais você se obcecar por ele e o transformar em seu objetivo, mais irá perdê-lo. Porque o sucesso, assim como a felicidade, não pode ser perseguido; deve surgir naturalmente, e só aparece como consequência não intencional da dedicação pessoal a uma causa maior do que si mesmo ou como resultado da entrega a outra pessoa. A felicidade deve acontecer, e o mesmo vale para o sucesso: é preciso permitir que surjam, sem se preocupar com eles. Ouça o que sua consciência lhe diz e siga isso da melhor forma possível. Então você verá que, a longo prazo — a longo prazo, insisto —, o sucesso virá justamente porque você deixou de pensar nele.” - Viktor Frankl 

https://www.minhavida.com.br/amp/materias/materia-29148 

 

 

O turbocapitalismo — termo cunhado por Edward Luttwak para descrever uma fase de livre mercado desenfreado, desregulado e globalizado — transformou a própria existência humana em uma mercadoria de alto rendimento. Nesse cenário, o sucesso deixou de ser o resultado circunstancial de um trabalho bem feito e foi promovido ao status de imperativo categórico e obsessão permanente. A lógica concorrencial do mercado colonizou a intimidade, fazendo com que o valor de um indivíduo seja medido quase exclusivamente por sua produtividade, status e métricas visíveis de conquista. A vida torna-se um infindável portfólio de desempenho, onde o descanso é visto como falha moral e a estagnação, como fracasso existencial.

É exatamente contra essa tirania do desempenho que ressoa a reflexão de Viktor Frankl. Para o psiquiatra e pensador existencial, a busca direta pelo sucesso é uma armadilha autorreferente que o corrói: "Não busque o sucesso. Quanto mais você se obcecar por ele e o transformar em seu objetivo, mais irá perdê-lo". Frankl identifica a contradição fundamental da hipermodernidade: ao transformarmos o sucesso em um alvo a ser caçado, esvaziamos o sentido da ação que deveria produzi-lo. O sucesso e a felicidade não toleram a coisificação; eles são fenômenos de contrassenso, frutos indiretos de uma entrega genuína a algo que transcende o ego.

A tese frankliana propõe que tais estados só aparecem como "consequência não intencional da dedicação pessoal a uma causa maior do que si mesmo ou como resultado da entrega a outra pessoa". Em um sistema moldado pelo individualismo competitivo do turbocapitalismo, essa proposição soa quase revolucionária. O mercado exige que cada ação seja utilitária e calculada em prol de um retorno pessoal, enquanto Frankl argumenta que a verdadeira realização exige o esquecimento de si. Quando o indivíduo se absorve por uma vocação, por uma obra, pelo cuidado com o outro ou por convicções éticas profundas, a ânsia pelo reconhecimento desvanece, abrindo espaço para que o êxito autenticamente aconteça.

A exigência de viver sob o tacão da hiperprodutividade gera uma sociedade exausta, aprisionada naquilo que Byung-Chul Han denominou sociedade do cansaço, onde o sujeito se explora a si mesmo sob a ilusão de estar realizando a sua liberdade. Recuperar a sabedoria de ouvir o que a consciência dita — e segui-la sem a paranoia do resultado imediato — é um ato de resistência contra essa aceleração sistêmica. Ao aceitar que a felicidade e o sucesso devem apenas "acontecer, sem se preocupar com eles", resgata-se a dimensão qualitativa da existência, lembrando que a vida humana vale pelo que tem de sentido intrínseco, e não apenas pelo saldo de suas vitórias mensuráveis.


Citados


Viktor Emil Frankl (Viena, 26 de março de 1905 — Viena, 2 de setembro de 1997) foi um neuropsiquiatra austríaco. Conhecido por seu best-seller “Em Busca de Sentido”, onde descreve suas experiências em quatro campos de concentração nazistas, foi o fundador da logoterapia, abordagem psicoterapêutica baseada na busca de um sentido para a vida.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Viktor_Frankl  


Edward Nicolae Luttwak (Arad, Romênia, 4 de novembro de 1942) é um estrategista militar, cientista político e historiador estadunidense. Publicou obras sobre estratégia militar, história e relações internacionais. — https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Luttwak   


Byung-Chul Han (Pyong-Chol Han) (Seul, 1959) é um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim. Ele estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Atualmente, é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim e autor de uma dezena de ensaios de críticas à sociedade do trabalho e à tecnologia. — https://pt.wikipedia.org/wiki/Byung-Chul_Han