sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Tavares: Crítica ao Capitalismo Global

Se você busca material para a sua coleção de pensamentos da esquerda desenvolvimentista clássica, esse vídeo da Maria da Conceição Tavares é uma relíquia (final dos anos 1980 no contexto da queda do Muro de Berlim e a "utopia europeia de 1992" que ela menciona).


Hegemonia americana - quem realmente sustenta o dólar no mundo? - Maria da Conceição Tavares

http://www.youtube.com/watch?v=BH2dRwsQ9rM  



Aqui está o resumo dos pontos principais, ou como eu chamaria, as "profecias":

1. A Geometria do Poder e o "Império" Americano

  • Os EUA como um "Estômago": Ela descreve os Estados Unidos não mais como uma potência produtiva organizada, mas como um "enorme estômago" continental que atrai capitais e empresas do mundo todo para serem digeridos/reestruturados lá dentro [13:45].

  • Hegemonia pelo Caos: Para ela, os EUA deixaram de ser os "ordenadores" do sistema para serem apenas o "maior poder". Ela critica o governo Reagan por ter "desordenado o mundo" com o projeto Guerra nas Estrelas e a retomada do padrão dólar [13:07].

2. O Japão e a Alemanha como "Potências Capengas"

  • O "Rabo" Japonês: Ela ridiculariza a ideia de que o sucesso japonês venha da cultura ou da poupança do povo (chamando isso de "conversa fiada para economista estrutural"). Para ela, o Japão e a Alemanha só se reergueram porque os EUA precisavam deles na Guerra Fria [09:05].

  • Dependência do Dólar: Ela argumenta que o Japão é obrigado a "bancar" o Tesouro Americano para não deixar o sistema colapsar, vivendo uma relação de mútua conveniência onde o "dólar farrapado" ainda manda nos outros bancos centrais [19:07].

3. A Crise do Capitalismo e o "Nonsense" Financeiro

  • Capitalismo sem Estado: Uma das teses centrais é que o capitalismo entrou num estágio onde os Estados nacionais perderam o poder de regular a concorrência. Ela chega a dizer que não sabe se isso ainda pode ser chamado de capitalismo, pois parece algo "insólito" onde bancos e multinacionais se autorregulam [24:52].

  • A "Droga" do Mercado de Trabalho: Ela lamenta que, enquanto o capital e a produção se internacionalizaram, os mercados de trabalho continuam fechados por barreiras imigratórias. A única exceção seria a "utopia europeia" [26:02].

4. Visão sobre o Brasil

  • Dívida Pública: Ela discorda de que a dívida brasileira seja grande, o problema para ela é que ela foi "estatizada", quebrando o Banco Central e as finanças públicas [23:01].

  • Esperança Continental: No fim, ela demonstra um certo otimismo ufanista, dizendo que o Brasil, por ser um "espaço continental" com 140 milhões de pessoas (população da época), acabará encontrando uma solução, independente da dívida externa [27:10].

O tom geral: É a performance clássica dela — acelerada, ácida, citando mestres (Celso Furtado, Gilpin) e tratando a dinâmica financeira global como um grande jogo de poder militar e monetário onde o "social" fica sempre escanteado.


Ressaca

Interessante que até filmes como "Sol Nascente" (1993) retrataram esse sentimento de declínio estadunidense e um poder japonês global que nunca se evidenciou.


Mas o que tem me chamado a atenção é o surpreendente crescimento dos EUA desde a crise de 2008, e a ascensão absoluta de empresas estadunidenses no ranking desde então.

Essa observação é cirúrgica para tratar do cenário previsto aquela época e toca em uma das maiores "derrotas" das profecias econômicas do século XX. O que aconteceu na prática foi o inverso do que os intelectuais dos anos 80, como a Maria da Conceição Tavares, previam.

Enquanto ela descrevia os EUA como um "estômago caótico" em declínio, o que vimos pós-2008 foi uma divergência brutal de crescimento entre os EUA e o resto do mundo desenvolvido, destacadamente a Europa e assistindo uma estagnação japonesa.

O Abismo em Números (EUA vs. Europa)

Para você ter uma ideia da escala desse "erro" de previsão:

  • PIB em 2008: A economia da Zona Euro e a dos EUA eram quase do mesmo tamanho (os EUA tinham cerca de US$ 14,7 trilhões e a Zona do Euro US$ 14,1 trilhões).

  • PIB hoje (2024/2025): Os EUA dispararam para cerca de US$ 27-28 trilhões, enquanto a Zona Euro ficou estagnada na casa dos US$ 15 trilhões.

  • Domínio de Mercado: Em 2010, as empresas americanas representavam cerca de 50% do índice global de ações (MSCI World). Hoje, elas respondem por quase 74%

Por que a "profecia" falhou tanto?

Existem três razões principais que explicam por que os EUA não "implodiram" como a esquerda desenvolvimentista esperava:

  1. A Revolução Digital (Onde a Europa e o Japão "dormiram"): As "Sete Magníficas" (Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla) não são apenas empresas; elas são a infraestrutura do mundo moderno. A Europa focou em regulação (GDPR) e o Japão ficou preso ao hardware e à indústria automotiva clássica. Os EUA capturaram toda a camada de software e dados da economia global.

  2. Independência Energética (O "Shale Gas"): Uma das grandes teses da Tavares era que os EUA seriam moídos pela dependência de matérias-primas e energia. O que ela não previu foi a revolução do fracking, que transformou os EUA no maior produtor de petróleo e gás do mundo, dando uma vantagem de custo de energia imbatível para a indústria americana frente à europeia.

  3. Flexibilidade de Capital e Trabalho: O "caos" que ela criticava — a falta de regulação estatal rígida — acabou sendo a força dos EUA. Em 2008, os EUA "limparam" os balanços dos bancos e deixaram empresas falirem rapidamente para recomeçar. A Europa entrou em uma década de austeridade e crises de dívida soberana (Grécia, Itália, Espanha) da qual nunca se recuperou plenamente em termos de dinamismo. Lembremo-nos que somando Portugal, com suas características, formou-se os PIGS, os países economicamente problemáticos da Europa.

O "Sol Nascente" que se pôs

Aquele sentimento do filme Sol Nascente era baseado na ideia de que o Japão compraria tudo (o Rockefeller Center foi o grande símbolo disso). Mas o Japão caiu na armadilha da demografia e da deflação. Hoje, o valor de mercado da Nvidia sozinha já chegou a flertar com o valor de quase todo o mercado de ações alemão ou francês.

A Maria da Conceição Tavares acertou que o setor financeiro seria o "cerne da crise", mas errou ao não perceber que esse mesmo setor financeiro, aliado ao Vale do Silício, criaria uma máquina de extração de valor global que mantém o dólar como a moeda indiscutível, apesar de todas as previsões de "farrapo".

Ideologia pode cegar para mudanças tecnológicas estruturais.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A escala dos eventos esportivos nos EUA

Os números do Campeonato Brasileiro (Série A) vêm quebrando recordes sucessivos, embora ainda operem em uma escala diferente das grandes ligas americanas (como NFL ou NBA).


Para 2024 e com projeções para 2025, o movimento financeiro da elite do futebol brasileiro consolidou-se da seguinte forma:

1. Faturamento Total (Receita Bruta)

Em 2024, os 20 principais clubes brasileiros atingiram a marca histórica de R$ 10,2 bilhões a R$ 10,9 bilhões em receitas totais (dependendo do relatório consultado, como Sports Value ou Convocados). Esse valor inclui direitos de TV, marketing, bilheteria e venda de atletas.

2. Marketing e Publicidade (Comercial)

As receitas comerciais (patrocínios e licenciamentos) cresceram significativamente, impulsionadas principalmente pelo setor de apostas esportivas ("bets").

  • Total Estimado: Aproximadamente R$ 1,9 bilhão em 2024.

  • Representatividade: O marketing já representa cerca de 18% do faturamento total dos clubes.

  • Cotas de TV (Publicidade das Emissoras): Para 2025, apenas a Globo estima arrecadar R$ 2,1 bilhões com seu pacote comercial de transmissões.

3. Bilheteria e "Matchday"

O ano de 2024 foi recorde em público, superando 10 milhões de torcedores nos estádios.

  • Arrecadação Bruta: Cerca de R$ 497 milhões a R$ 500 milhões exclusivamente em bilheteria na Série A.

  • Conceito de Matchday: Se somarmos a bilheteria aos programas de sócio-torcedor e consumo nos estádios, o valor sobe para aproximadamente R$ 1,1 bilhão.

Resumo do Movimento (Publicidade + Bilheteria)

Se isolarmos apenas os dois pilares que você mencionou (Marketing dos clubes + Bilheteria direta), o movimento gira em torno de R$ 2,4 bilhões.

Se incluirmos o faturamento das emissoras com publicidade e os programas de sócio-torcedor, esse ecossistema "comercial e de público" ultrapassa facilmente os R$ 5 bilhões.

Nota: Embora os valores sejam recordes para o Brasil, a título de comparação, a NFL (EUA) movimenta anualmente cerca de US$ 19 bilhões (aprox. R$ 95 bilhões), o que mostra que o Brasileirão ainda tem um vasto espaço para crescimento em profissionalização e exploração de marca.

Super Bowl

O Super Bowl não é apenas um jogo; é o maior dia de faturamento individual da história da publicidade e um dos eventos mais lucrativos do planeta. Como hoje é dia 8 de fevereiro de 2026, estamos justamente na data do Super Bowl LX, que acontece hoje no Levi's Stadium, na Califórnia.

Para responder à sua pergunta, os valores do Super Bowl são divididos em três frentes principais:

1. Publicidade (O "Rei" do Evento)

Este é o pilar mais impressionante. Em 2026, a rede NBCUniversal (que detém os direitos de transmissão deste ano) alcançou valores recordes:

  • Preço médio: Um comercial de 30 segundos custa cerca de US$ 8 milhões (aprox. R$ 40 milhões).

  • Recorde Individual: Algumas marcas chegaram a pagar US$ 10 milhões por espaços premium.

  • Faturamento da Emissora: Apenas com anúncios durante a transmissão, estima-se que a NBC arrecade mais de US$ 800 milhões (R$ 4 bilhões) em um único dia.

2. Bilheteria e Experiência no Estádio

Diferente do Brasileirão, onde o valor é diluído em 38 rodadas, o Super Bowl concentra tudo em poucas horas:

  • Preço dos Ingressos: No mercado secundário (revenda oficial), o preço médio de um ingresso para o jogo de hoje gira em torno de US$ 9.000 a US$ 12.000.

  • Arrecadação de Bilheteria: Estima-se que a NFL arrecade entre US$ 70 milhões e US$ 100 milhões apenas com a venda de ingressos para os cerca de 70 mil espectadores presentes.

3. Impacto Econômico Total

Se somarmos o que as pessoas gastam com viagens, hotéis em Santa Clara/San Francisco, festas e comida (o americano médio gasta cerca de US$ 86 especificamente para o dia do jogo), o movimento é colossal:

  • Impacto na Cidade-Sede: O evento de 2026 deve gerar entre US$ 400 milhões e US$ 600 milhões para a economia local da Baía de San Francisco.

  • Consumo Nacional (EUA): O gasto total dos consumidores americanos relacionado ao evento (comida, TV nova, camisas) ultrapassa os US$ 17 bilhões.


Comparativo Rápido (Valores Aproximados) 



Categoria

Brasileirão (Série A - Ano Todo)

Super Bowl (1 Único Jogo)

Publicidade (TV)

R$ 2,1 bilhões (Estimado/Ano)

R$ 4,0 bilhões (4 horas de jogo)

Bilheteria

R$ 500 milhões (380 jogos)

R$ 450-500 milhões (1 jogo)


Resumo: O Super Bowl movimenta, em uma única tarde, praticamente o mesmo que o Campeonato Brasileiro inteiro arrecada em bilheteria e publicidade de TV durante o ano todo.


O Super Bowl deste ano

Vamos "desenrolar" a máquina financeira por trás do Super Bowl LX, que está acontecendo hoje, 8 de fevereiro de 2026.

Os números deste ano são históricos e mostram por que a NFL é considerada a liga mais rica do mundo.

1. Publicidade: O Segundo de Ouro

Para a transmissão deste domingo na NBC, o preço de um comercial de 30 segundos atingiu o patamar recorde de US$ 10 milhões (aprox. R$ 50 milhões).

  • A "Economia da Atenção": O custo subiu agressivamente (em 2020 era US$ 5,6 milhões). Isso acontece porque o Super Bowl é o único momento em que 140 milhões de pessoas param para assistir à mesma coisa ao mesmo tempo.

  • Novos Gigantes: Além da Budweiser e Coca-Cola, as empresas de Inteligência Artificial e tecnologia dominam os intervalos deste ano, ocupando quase 40% dos novos espaços vendidos.

2. Para onde vai o dinheiro? (A "Socialização" da Riqueza)

Diferente do Brasil, onde cada clube negocia como pode, a NFL funciona como uma cooperativa:

  • Divisão Igualitária: Praticamente toda a receita de TV e patrocínios globais da liga (que deve chegar a US$ 25 bilhões anuais até 2027) é dividida em partes exatamente iguais entre os 32 times.

  • O "Cheque" dos Clubes: No último balanço, cada franquia recebeu cerca de US$ 400 milhões apenas dessa "cota nacional", independentemente de serem campeãs ou terem ficado em último lugar.

3. Premiação: Ouro para os Atletas

Curiosamente, os times (as empresas) não recebem um "prêmio em dinheiro" por vencer o Super Bowl. O lucro deles vem da valorização da marca e licenciamento. Quem leva o bônus direto são os jogadores:

  • Campeões: Cada jogador do time vencedor de hoje receberá US$ 188.000.

  • Vice: Os jogadores do time que perder receberão cerca de US$ 94.000.

Para um reserva que ganha o salário mínimo da liga, esse bônus de uma única noite pode representar 20% do seu salário anual.

4. O Valor das Franquias em Campo Hoje

Os dois times que disputam a final hoje, New England Patriots e Seattle Seahawks, são verdadeiros impérios:

  • O Patriots é avaliado em cerca de US$ 9 bilhões.

  • O Seahawks vale aproximadamente US$ 6,7 bilhões e está no centro de rumores de uma venda recorde em breve.

Resumo da Ópera: Enquanto no Brasileirão luta-se para que os clubes cheguem a um faturamento total de R$ 1 bilhão por ano, na NFL, um único time recebe quase R$ 2 bilhões da liga antes mesmo de abrir os portões do seu estádio.