sábado, 28 de fevereiro de 2026

Não foi por falta de avisos

Em Fundação, de Isaac Asimov, há um momento crucial em que o grande matemático Hari Seldon é levado a depor diante da cúpula do Império Galático. Sob a suspeita de conspiração, ele apresenta os resultados da Psicohistória: a ciência que prevê o comportamento das massas e o destino das civilizações. Seldon não traz boas notícias; ele desenha o mapa de uma Idade das Trevas inevitável, um colapso iminente da estrutura que todos acreditavam ser eterna.



Ao ser confrontado pelo poder — que, atônito, pergunta o que pode ser feito para impedir tal processo — a resposta de Seldon é um balde de água fria na arrogância imperial. Ele explica que o Império não é mais um organismo vivo capaz de manobrar, mas uma massa colossal dotada de uma inércia irrefreável. O movimento de queda já está em curso há séculos, alimentado por uma burocracia que consome a si mesma e por uma rigidez que impede qualquer adaptação real.

Para Seldon, a questão não é mais "se" o Império cairá, mas "como" sobreviveremos ao impacto. Ele propõe que não se pode mais parar o que a história (ou a matemática) já pôs em movimento; o que resta é minimizar os danos. O objetivo não é salvar a velha e pesada estrutura, mas criar as bases — a Fundação — para que o vácuo de poder e a miséria econômica que se seguirão não durem trinta mil anos, mas apenas mil.

Apresentada essa metáfora de ficção científica para o que vamos apresentar, vamos a dois dados fundamentais:

Governo Central registra déficit primário de R$ 15,564 bilhões em agosto, revelam dados do Tesouro - Acumulado dos oito primeiros meses de 2024 é deficitário em R$ 86,068 bilhões - 29/09/2025

https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2025/setembro/governo-central-registra-deficit-primario-de-r-15-564-bilhoes-em-agosto-revelam-dados-do-tesouro 


Governo Central registra déficit primário de R$ 14,497 bilhões em setembro, aponta o Tesouro Nacional - Acumulado dos nove primeiros meses de 2024 é deficitário em R$ 100,385 bilhões - 30/10/2025

https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/governo-central-registra-deficit-primario-de-r-14-497-bilhoes-em-setembro-aponta-o-tesouro-nacional 


Se a psicohistória de Seldon tratava da inércia de trilhões de seres humanos, a nossa "psicohistória fiscal" trata da inércia de bilhões de reais que insistem em vazar pelo casco do Estado. Os avisos estão impressos nos relatórios do Tesouro Nacional, mas, como o Imperador de Asimov, o debate público muitas vezes prefere ignorar a trajetória da curva em favor do conforto da negação.

Os dados recentes são o veredito da gravidade:

  • Agosto de 2024: O Governo Central registrou um déficit primário de R$ 15,564 bilhões. No acumulado dos primeiros oito meses, o buraco já atingia R$ 86,068 bilhões.

  • Setembro de 2024: Apenas trinta dias depois, mais R$ 14,497 bilhões em déficit. O acumulado rompeu a barreira psicológica dos doze dígitos, chegando a R$ 100,385 bilhões negativos em apenas nove meses.

A Anatomia da Queda

O que esses números revelam é que a máquina pública brasileira adquiriu uma dinâmica própria, independente da vontade política imediata. Quando o déficit acumulado salta de 86 para 100 bilhões em um único mês, estamos diante da inércia do que já está em movimento.

Não se trata de um evento fortuito ou de uma crise externa imprevisível. É o resultado de uma estrutura que gasta mais do que arrecada por desenho, não por acidente. Cada bilhão adicionado ao déficit é um prego a mais na estrutura daquela "árvore podre" de Seldon: por fora, o governo anuncia planos e metas; por dentro, a sustentabilidade fiscal é corroída por despesas obrigatórias que não aceitam o freio da realidade.

Na lógica de Asimov, tentar estancar esse sangramento com medidas paliativas é como tentar desviar um planeta de sua órbita com um sopro. A trajetória de R$ 100 bilhões de déficit em nove meses indica que o Império Fiscal já escolheu seu destino. A pergunta que os dados nos impõem — e que os avisos ignorados tentaram evitar — é: quanto tempo de "Idade das Trevas" econômica teremos de suportar antes que uma nova Fundação seja construída?

Nesse ponto de nossa análise, a psicohistória fiscal revela uma verdade nua: a capacidade de geração de caixa do governo foi definitivamente ultrapassada pelo crescimento exponencial da dívida. Não se trata mais de diagnosticar se o colapso poderá ocorrer no futuro, como uma tempestade distante no horizonte. O diagnóstico é de que o colapso já está em marcha. Ele é o movimento inercial que detectamos nos dados de 2025 e que agora ganha uma aceleração gravitacional própria.

Diante da magnitude desse déficit acumulado, que já ultrapassa a casa dos doze dígitos em apenas três trimestres, a ilusão de "impedir" o processo deu lugar à necessidade brutal de contê-lo. Como Seldon explicou ao Imperador, não há mais manobra que nos devolva ao estado anterior. Agora, o que resta é minimizar seus graves efeitos, buscando um amortecimento imediato através de um aperto nas contas públicas em todas as variáveis pensáveis.

A inércia do déficit exige uma força de oposição equivalente. Cada dia de hesitação política é um século a mais de "Idade das Trevas" econômica. Como o Grande Matemático de Trantor, os economistas que hoje assinam esses alertas não buscam o aplauso do Imperador, mas a sobrevivência do que restará após o impacto. Se o colapso fiscal já está em marcha e a inércia é soberana, o ajuste não é mais uma opção política, uma escolha ideológica — é o único amortecedor, mas a única ferramenta de sobrevivência para que a queda — que já começou — não se torne uma desintegração total da estrutura social.


Extras

 
1

Dados sobre evolução da dívida pública brasileira de 2018 a 2026 (previsto).


Brasil precisa de ajuste fiscal de R$ 250 bilhões, alerta economista Mansueto Almeida - Carlos Augusto, 1 de Outubro de 2025 - jornalgrandebahia.com.br 



Destacamos:

“Em setembro de 2025, a Instituição Fiscal Independente (IFI) divulgou relatório sobre o Projeto de Lei Orçamentária de 2026, projetando um cenário mais pessimista do que o estimado pelo governo.

  • O PIB deve crescer 1,7% em 2026, abaixo dos 2,4% previstos pelo governo.

  • A inflação projetada é de 4,3%, contra 3,6% da estimativa oficial.

  • O déficit primário efetivo deve chegar a R$ 103 bilhões (0,7% do PIB) em 2026, enquanto o governo trabalha com meta de superávit de 0,25% do PIB.

  • A dívida bruta deve alcançar 84% do PIB em 2026, ampliando os riscos fiscais.

  • Para estabilizar a relação dívida/PIB, seria necessário um superávit primário de 2,1% do PIB, meta distante do atual quadro fiscal.

Esses dados reforçam a avaliação de Mansueto sobre a trajetória insustentável da dívida e a necessidade de cortes estruturais em despesas obrigatórias.”


2


Evolução da dívida pública tem perspectiva negativa, Comunicação Atlântico. fevereiro 8, 2023 - atlantico.org.br

Destacamos:

“Para restabelecer a sustentabilidade intertemporal do setor público, o Brasil deverá gerar um superávit primário de 1 a 1,5% do PIB, na média de 2024-30, segundo a análise da FGV/IBRE. Com isto, as pressões sobre o câmbio e a taxa de juros de longo prazo seriam reduzidas.” 


O Veredito dos Fatos: A Inércia em Números

Os avisos, como vimos, não são abstratos. O relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) de setembro de 2025 é o mapa da nossa colisão. Enquanto o discurso oficial projeta um céu de brigadeiro, a matemática da IFI revela a erosão: um PIB que cresce menos do que o esperado (1,7%) e um déficit primário que deve atingir os R$ 103 bilhões em 2026.

O alerta de Mansueto Almeida é a voz da razão que o Imperador evita ouvir: o Brasil precisa de um ajuste de R$ 250 bilhões. Sem um superávit primário de pelo menos 2,1% do PIB — algo que hoje parece uma miragem estatística —, a relação dívida/PIB de 84% torna-se uma âncora que arrasta toda a estrutura para o fundo. Como aponta a análise da FGV/IBRE, a sustentabilidade intertemporal do país exige uma disciplina que a inércia política atual simplesmente não consegue entregar.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O Império do Imaterial

Por que as Profecias do Declínio Americano Falharam

"O Triunfo do Efêmero sobre o Atômico."

I. A Armadilha do Industrialismo Clássico

O pensamento econômico do século XX, especialmente o de matriz desenvolvimentista, sofria de uma "miopia do aço". Para essa escola, a força de uma nação era medida pelo peso de sua produção industrial. Quando os EUA iniciaram a transição para uma economia de serviços e tecnologia, observadores como Maria da Conceição Tavares diagnosticaram um "caos financeiro" e uma "decadência imperial". Eles viam o fechamento das siderúrgicas em Ohio, mas eram cegos para a fundação da Microsoft e da Apple. Não perceberam que o poder estava mudando de estado físico: do sólido para o digital. 

II. A Efemeralização como Vantagem Estratégica

A aplicação prática do conceito de Buckminster Fuller — fazer "cada vez mais com cada vez menos até que se possa fazer tudo com nada" — tornou-se o motor invisível da hegemonia americana.

  • Desmaterialização do PIB: Enquanto a China se afunda em superprodução de aço (precisando de dumping para não colapsar suas plantas físicas) e a Índia foca no refino de petróleo, os EUA focam na compactação do valor.

  • Um iPhone ou um algoritmo de IA pesam quase nada, mas capturam a riqueza gerada por milhões de toneladas de minério de ferro extraídas em outros cantos do globo. Os EUA transformaram-se em uma "metrópole intelectual" que arrenda a "fábrica física" para o resto do mundo.

III. A Ilusão das "Traquitanas" e do Vestuário

O erro comum é confundir o local da produção com o local da riqueza. A China pode produzir o vestuário e as "traquitanas" eletrônicas, mas ela o faz em uma estrutura de baixa margem, dependente de volume e de consumo de recursos finitos. Os EUA, por outro lado, dominam o design, o software e o sistema financeiro que viabiliza essa troca. A China está presa na economia do "mais material", enquanto os EUA avançaram para a economia do "menos material, mais inteligência". O dumping chinês de aço não é sinal de força, mas um sintoma de desespero de um modelo que não consegue desmaterializar sua própria estrutura de custos.

IV. A Resiliência do "Estômago" Digital

A profecia de que os EUA seriam um "estômago caótico" que apenas consome o que os outros produzem provou-se incompleta. O "estômago" americano é, na verdade, um reator de valor. Ele consome bens físicos baratos (importados) e devolve serviços, tecnologia e segurança de altíssimo valor agregado. A crise de 2008, longe de ser o fim, foi o catalisador que limpou o excesso de gordura e permitiu que as Big Techs consolidassem um domínio que nem exércitos, nem refinarias indianas, conseguem contestar.

Conclusão: O Pós-Capitalismo de Fuller

O que vivemos hoje não é o capitalismo regulado que a esquerda saudosa desejava, nem o caos que previam. É uma forma de tecnocracia efêmera. O aço chinês pode construir pontes, mas é o software americano que decide quem passa por elas e como o pedágio será pago. A história provou que, na geometria do poder moderno, o ponto de Fuller venceu a linha de montagem.

Na era da efemeralização, quem controla o átomo é escravo de quem controla o bit.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Tavares: Crítica ao Capitalismo Global

Se você busca material para a sua coleção de pensamentos da esquerda desenvolvimentista clássica, esse vídeo da Maria da Conceição Tavares é uma relíquia (final dos anos 1980 no contexto da queda do Muro de Berlim e a "utopia europeia de 1992" que ela menciona).


Hegemonia americana - quem realmente sustenta o dólar no mundo? - Maria da Conceição Tavares

http://www.youtube.com/watch?v=BH2dRwsQ9rM  



Aqui está o resumo dos pontos principais, ou como eu chamaria, as "profecias":

1. A Geometria do Poder e o "Império" Americano

  • Os EUA como um "Estômago": Ela descreve os Estados Unidos não mais como uma potência produtiva organizada, mas como um "enorme estômago" continental que atrai capitais e empresas do mundo todo para serem digeridos/reestruturados lá dentro [13:45].

  • Hegemonia pelo Caos: Para ela, os EUA deixaram de ser os "ordenadores" do sistema para serem apenas o "maior poder". Ela critica o governo Reagan por ter "desordenado o mundo" com o projeto Guerra nas Estrelas e a retomada do padrão dólar [13:07].

2. O Japão e a Alemanha como "Potências Capengas"

  • O "Rabo" Japonês: Ela ridiculariza a ideia de que o sucesso japonês venha da cultura ou da poupança do povo (chamando isso de "conversa fiada para economista estrutural"). Para ela, o Japão e a Alemanha só se reergueram porque os EUA precisavam deles na Guerra Fria [09:05].

  • Dependência do Dólar: Ela argumenta que o Japão é obrigado a "bancar" o Tesouro Americano para não deixar o sistema colapsar, vivendo uma relação de mútua conveniência onde o "dólar farrapado" ainda manda nos outros bancos centrais [19:07].

3. A Crise do Capitalismo e o "Nonsense" Financeiro

  • Capitalismo sem Estado: Uma das teses centrais é que o capitalismo entrou num estágio onde os Estados nacionais perderam o poder de regular a concorrência. Ela chega a dizer que não sabe se isso ainda pode ser chamado de capitalismo, pois parece algo "insólito" onde bancos e multinacionais se autorregulam [24:52].

  • A "Droga" do Mercado de Trabalho: Ela lamenta que, enquanto o capital e a produção se internacionalizaram, os mercados de trabalho continuam fechados por barreiras imigratórias. A única exceção seria a "utopia europeia" [26:02].

4. Visão sobre o Brasil

  • Dívida Pública: Ela discorda de que a dívida brasileira seja grande, o problema para ela é que ela foi "estatizada", quebrando o Banco Central e as finanças públicas [23:01].

  • Esperança Continental: No fim, ela demonstra um certo otimismo ufanista, dizendo que o Brasil, por ser um "espaço continental" com 140 milhões de pessoas (população da época), acabará encontrando uma solução, independente da dívida externa [27:10].

O tom geral: É a performance clássica dela — acelerada, ácida, citando mestres (Celso Furtado, Gilpin) e tratando a dinâmica financeira global como um grande jogo de poder militar e monetário onde o "social" fica sempre escanteado.


Ressaca

Interessante que até filmes como "Sol Nascente" (1993) retrataram esse sentimento de declínio estadunidense e um poder japonês global que nunca se evidenciou.


Mas o que tem me chamado a atenção é o surpreendente crescimento dos EUA desde a crise de 2008, e a ascensão absoluta de empresas estadunidenses no ranking desde então.

Essa observação é cirúrgica para tratar do cenário previsto aquela época e toca em uma das maiores "derrotas" das profecias econômicas do século XX. O que aconteceu na prática foi o inverso do que os intelectuais dos anos 80, como a Maria da Conceição Tavares, previam.

Enquanto ela descrevia os EUA como um "estômago caótico" em declínio, o que vimos pós-2008 foi uma divergência brutal de crescimento entre os EUA e o resto do mundo desenvolvido, destacadamente a Europa e assistindo uma estagnação japonesa.

O Abismo em Números (EUA vs. Europa)

Para você ter uma ideia da escala desse "erro" de previsão:

  • PIB em 2008: A economia da Zona Euro e a dos EUA eram quase do mesmo tamanho (os EUA tinham cerca de US$ 14,7 trilhões e a Zona do Euro US$ 14,1 trilhões).

  • PIB hoje (2024/2025): Os EUA dispararam para cerca de US$ 27-28 trilhões, enquanto a Zona Euro ficou estagnada na casa dos US$ 15 trilhões.

  • Domínio de Mercado: Em 2010, as empresas americanas representavam cerca de 50% do índice global de ações (MSCI World). Hoje, elas respondem por quase 74%

Por que a "profecia" falhou tanto?

Existem três razões principais que explicam por que os EUA não "implodiram" como a esquerda desenvolvimentista esperava:

  1. A Revolução Digital (Onde a Europa e o Japão "dormiram"): As "Sete Magníficas" (Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla) não são apenas empresas; elas são a infraestrutura do mundo moderno. A Europa focou em regulação (GDPR) e o Japão ficou preso ao hardware e à indústria automotiva clássica. Os EUA capturaram toda a camada de software e dados da economia global.

  2. Independência Energética (O "Shale Gas"): Uma das grandes teses da Tavares era que os EUA seriam moídos pela dependência de matérias-primas e energia. O que ela não previu foi a revolução do fracking, que transformou os EUA no maior produtor de petróleo e gás do mundo, dando uma vantagem de custo de energia imbatível para a indústria americana frente à europeia.

  3. Flexibilidade de Capital e Trabalho: O "caos" que ela criticava — a falta de regulação estatal rígida — acabou sendo a força dos EUA. Em 2008, os EUA "limparam" os balanços dos bancos e deixaram empresas falirem rapidamente para recomeçar. A Europa entrou em uma década de austeridade e crises de dívida soberana (Grécia, Itália, Espanha) da qual nunca se recuperou plenamente em termos de dinamismo. Lembremo-nos que somando Portugal, com suas características, formou-se os PIGS, os países economicamente problemáticos da Europa.

O "Sol Nascente" que se pôs

Aquele sentimento do filme Sol Nascente era baseado na ideia de que o Japão compraria tudo (o Rockefeller Center foi o grande símbolo disso). Mas o Japão caiu na armadilha da demografia e da deflação. Hoje, o valor de mercado da Nvidia sozinha já chegou a flertar com o valor de quase todo o mercado de ações alemão ou francês.

A Maria da Conceição Tavares acertou que o setor financeiro seria o "cerne da crise", mas errou ao não perceber que esse mesmo setor financeiro, aliado ao Vale do Silício, criaria uma máquina de extração de valor global que mantém o dólar como a moeda indiscutível, apesar de todas as previsões de "farrapo".

Ideologia pode cegar para mudanças tecnológicas estruturais.