sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Idéias "brilhantes" I - Trem bala fazendo goma

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Os governos brasileiros primam por terem idéias que sarcasticamente chamaria "brilhantes". E aqui, o "brasileiros" significa qualquer nível de governo sobre solo brasileiro.

Dentre diversas coisas que os dois últimos governos federais tem tido como destacados projetos, alguns casos merecem molduras.


Trem "Bala"

Nada mais perfeito que ligar quaisquer duas das maiores cidades brasileiras por meio de trem, sendo que numa primeira etapa, ligar dentre estas, as duas dentro da chamada "região metropolitana estendida": São Paulo, chave para todo o desenvolvimento brasileiro, e Campinas, cidade que conhecendo bem, sei que será por muitos anos chave para o crescimento econômico do Brasil, seja pela posição, seja pela área, seja pelo parque educacional e de pesquisa, seja pelo parque industrial e tecnológico, seja por seu aeroporto (e nenhuma das cidades entre elas é menos importante).

Como já disse, gosto de números e cálculos simples. Campinas dista de São Paulo 90 km. Mas façamos 120 km, para efeito de desvios e manobras, para o deslocamento de um trem entre elas.

Para esta distância, considerando 4 paradas intermediárias, e aqui não quero saber se serão a grande e importante Jundiaí ou as pequenas Caieiras ou Cajamar, entre as quais o trem teria uma velocidade média de apenas 150 km/h (o antigo trem entre estas cidades alcançava 100 km/h, e qualquer trem alcança hoje esta velocidade). O trem faria aceleração e desacelerações de 10 km a velocidades médias de 75 km/h (na verdade, faz em menos). O que proponho é um modelo harmonioso de paradas. Um raciocínio de trem metropolitano, não um raciocínio de "trem bala".

Os tempos resultariam no seguinte:



Notemos que o tempo total seria de pouco mais de uma hora e meia, com pequenos problemas, especialmente de embarque e desembarque entre as cidades.
Agora coloquemos dados similares para um trem de alta velocidade ("bala") com até algumas vantagens nas paradas e reduzindo a distância, pelo traçado mais retilíneo:




Notemos que com tal conjunto de vantagens, ainda sim a redução teórica de tempo se daria de 92 para 35 minutos. Pode parecer muito, mas em termos de custo é completamente inviável, pois em função de uma redução de pouco menos de uma hora, ao invés de um preço de passagem próxima a de uma passagem de ônibus (hoje na faixa de 20 reais) passa-se a exigir-se uma passagem na faixa de uma passagem de avião nas melhores ofertas (só para se ter idéia, uma passagem Porto Alegre-Campinas pode ser comprada na faixa de 69 a 100 reais, e para uma distância de mais de 800 km, e um tempo de viagem de pouco mais de uma hora).

Mesmo fazendo uma ligação Campinas-São Paulo diretamente, por trem "bala" e esquecendo completamente as cidades intermediárias e sua importância em recursos humanos para a economia da região (lembrando, finalidade exata de um trem de alta velocidade, que não é adequado à cargas, a não ser a custo elevadísssimo com enormes problemas de logística), o tempo da viagem propriamente dita pode ser calculado em apenas 20 minutos. E não traria grande vantagem ao modelo de trem mais convencional.

Fazendo o mesmo cálculo para uma ligação direta por trem "bala" entre São Paulo e Rio, e considerando um distância de 400 km, obtem-se pouco mais de 80 minutos. Nenhuma vantagem em tempo frente ao transporte aéreo, e nada possível ainda em termos de custo para um grande volume de usuários que mesmo com passagens a menos de 50 reais nas ofertas mais agressivas do transporte aéreo abandona o transporte rodoviário, e não abandonaria quando em viagens emergenciais, sem ofertas promocionais, por simples renda.

Nem tratamos aqui de questões de topografia, curvas extremamente limitadas ou projetos de remodelações urbanas, em túneis mais longos que linhas de metrô através de cidades que nem metrô possuam.

Assim, o que recomendo é o modelo norteamericano de trens de relativamente alta velocidade (100 a 150km/h), mas que aproveite as relíquias da malha ferroviária anterior, não necessite nem curvas de grandes raios, nem túneis insanamente longos sob áreas urbanas, não sofra com variações de altitudes que chegam a até 800 metros (as quais já são por si inadequadas para trens de alta velocidade), nem desapropriações inexecutáveis a custo e prazos razoáveis (com os eternos conflitos de indenizações, ainda mais na lerda/sobrecarregada justiça brasileira).


E cá entre nós: não temos nem malha significativa para carga, e queremos ter malha de trens de alta velocidade para passageiros?



Anexos

           O trem bala no Brasil é inviável não só pelo custo, mas também pela infra- estrutura de um modo geral. As estações, os trilhos, os fios, ... (página expirada)
          Onde destacamos:

Os professores chamam a atenção para a ocupação atual da ponte aérea Rio-São Paulo, um dos corredores nacionais mais rentáveis de transporte de passageiros: 57%. "Obviamente, algumas companhias conseguem a totalidade em alguns horários, mas não todo o tempo. Tomando isso como referência, uma taxa de mais de 90% não nos parece viável, mesmo com uma taxa de eficiência bem alta, a não ser que fosse elevado o valor da tarifa. Mas aí o projeto perderia em competitividade de preços."

          Onde destacamos:

Os professores do Ibmec-RJ fizeram uma simulação para uma taxa de ocupação do trem-bala entre 40% e 50%. "A tarifa que se precisaria cobrar para garantir a rentabilidade seria próxima a R$ 1 por quilômetro, o dobro do que está sendo pedido", diz Ozório. Ele lembra que isso determinaria uma passagem final em torno de R$ 400. "Seria R$ 100 a mais do que a tarifa média da ponte aérea, o que criaria outra dificuldade de competitividade."

Três slogans emitidos por mim no Twitter: 

  • País que tem peste de pobre não pode ter ainda trem de rico.
  • País que tem pobre no hospital no chão e não em maca não pode ter ainda trem de rico.
  • País que tem esgoto no meio da rua onde pobre mora não pode ter ainda trem de rico.

Extras

1) Relatório da área técnica do Tribunal de Contas da União aponta como impossível estabelecer-se quanto custará o projeto entre São Paulo e Rio, devido a estudos geológicos para a obra apresentarem-se insuficientes, com a realização de apenas 4,4% da quantidade mínima de sondagens necessárias às estimativas para o custo da obra.

Custo do trem-bala é imprevisível, diz TCU; Folha de São Paulo

2) A construção de linhas de transmissão de energia elétrica não foi prevista no estudo para a aprovação da viabilidade do trem-bala, propiciando com isto um corte no custo de pelo menos R$ 1 bilhão, em um total de R$ 33,1 bilhões. Tal questão foi apontada por um dos grupos interessados no projeto durante os recentes pedidos de esclarecimento ao edital.

Soma-se à falta de linhas de transmissão de energia  a questão apontada por estudo de Marcos Mendes, consultor legislativo do Senado, mostrando que foi excluída a reserva de contingência do projeto, que em projetos de grande porte, podem representar até 30% do valor do projeto.

Dimmi Amora; Edital omite custo de energia do trem-bala; Folha de São Paulo

Tais fatos me levaram a acrescentar outro aforismo no Twitter:
  • A velocidade teórica do pretendido trem bala só é superada pela sua produção de micos.
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Tais

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