Por Francisco Quiumento & Gemini da Google
Quinta-feira, 25 de junho de 2026. Mais uma vez, após décadas, assisto um jornalista repetir o velho erro, que para o seu público pode parecer coerente, mas, frente ao que realmente é esse campo em Economia, é apenas a repetição de um erro. No caso, a afirmação de que, com o encerramento da guerra contra o Irã, o petróleo baixará de preço e "reduzirá a pressão sobre a inflação".
É a famosa confusão conceitual entre flutuação de preço relativo e inflação monetária. Essa insistência em tratar a inflação como se fosse apenas a soma mecânica de custos pontuais é, de fato, um dos erros mais sistemáticos do jornalismo econômico mainstream.
O equívoco que me irrita ignora a lógica macroeconômica básica:
1. Queda no Petróleo é Choque de Oferta (Preço Relativo)
O encerramento de um conflito geopolítico e a normalização da produção de petróleo reduzem a escassez do produto. O preço do barril cai. Isso é uma mudança em um preço relativo específico dentro da economia, um alívio pontual na cadeia de custos.
E não interessa que esse preço tenha uma influência em todos os setores imagináveis. Ainda sim, será um preço relativo que altera custos.
2. A ilusão do dinheiro que "sobrou"
Se o combustível fica mais barato, o consumidor e as empresas gastam menos para encher o tanque ou transportar mercadorias. O que acontece com o dinheiro que foi poupado aí?
Se a quantidade de moeda circulando na economia continuar a mesma, esse poder de compra excedente será redirecionado para outros bens e serviços (como lazer, tecnologia ou investimentos).
Essa migração da demanda tende a pressionar outros preços para cima. No agregado, o nível geral de preços se reequilibra.
3. Inflação é a perda de valor da moeda
A inflação real — o aumento contínuo, persistente e generalizado de todos os preços — é determinada pelo descompasso entre a oferta total de moeda e a capacidade produtiva real da sociedade.
Um choque de commodities pode causar uma oscilação na "foto" do índice de preços daquele mês (um efeito estatístico), mas não dita a tendência de longo prazo.
Quem determina a trajetória da inflação são as políticas dos Bancos Centrais, e não a cotação do barril de Brent.
Resumo da ópera: O jornalista confunde "reduzir o preço de um insumo importante" com "conter a perda de poder aquisitivo da moeda". O primeiro é um choque microeconômico/geopolítico; o segundo é um fenômeno estritamente macroeconômico. Assistir a essa mesma análise rasa ser repetida em looping por décadas é um teste de paciência.
Uma observação final:
Graficamente, uma curva do índice de preços em tempos mais longos pode ter um comportamento que mostre esse salto (um aumento do preço do petróleo por causa de uma guerra, ou uma queda do preço), mas a inflação realmente será representada por uma “curva base”, que pode ficar oculta em meio a esse ruído de alimentos relativos, e terá um comportamento sempre mais harmonioso, ainda que, com o exemplo das hiperinflações da história econômica (Alemanha de 1923, Hungria de 1946, Bolívia dos anos 1980 e recentemente o Zimbábue) tenham tido um perfil ascendente extremamente anguloso.
Inflação da Alemanha 1921-1923. Perceba-se que a escala é logarítmica. [Bitybank]
Nota de cem bilhões de marcos de 1924.
Extra
Pelos motivos acima, certos “berreiros” com forte tempero ideológico tipicamente latino-americano sobre “volta da inflação” na Argentina não tem nexo econômico.
Claro, até o momento que o atual governo realmente atuar para permitir a elevação da base monetária, e sobressaltos como os causados por choques como o abrangente petróleo não fazem parte do quadro macroeconômico típico que é associado à inflação.
A curva no seu quadro mais amplo é que realmente mostra o que seja o verdadeiro cenário inflacionário.
2
1. Desmonte do "Espantalho" Ideológico
Na América Latina, o debate sobre a inflação argentina frequentemente abandona a técnica para virar torcida política. Se o índice cheio sobe em um mês devido a um choque de preços relativos (como o realinhamento de tarifas represadas ou flutuações de commodities), a oposição grita que "a inflação voltou/continua". Se cai no mês seguinte pelo efeito inverso, a situação celebra a "vitória definitiva". Ambos ignoram a tendência estrutural.
2. O Verdadeiro Termômetro: A Base Monetária
O que dita se a Argentina vai de fato ancorar a sua inflação a longo prazo é o encerramento definitivo da emissão descontrolada e o saneamento do balanço do Banco Central. Choques externos ou sazonais no meio do caminho são apenas os "dentes de serra" do gráfico; não mudam o vetor principal se a torneira monetária continuar fechada.
3. A Perspectiva de Longo Prazo
Para entender a saúde econômica de um país que carrega o histórico de distorções da Argentina (e diversos outros), é preciso dar um passo atrás e olhar o gráfico em um plano ampliado. Só a linha de tendência limpa — expurgada dos espasmos de curto prazo — revela se a moeda está recuperando sua função de reserva de valor ou se o processo de destruição continua ativo.
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