Se você busca material para a sua coleção de pensamentos da esquerda desenvolvimentista clássica, esse vídeo da Maria da Conceição Tavares é uma relíquia (final dos anos 1980 no contexto da queda do Muro de Berlim e a "utopia europeia de 1992" que ela menciona).
Hegemonia americana - quem realmente sustenta o dólar no mundo? - Maria da Conceição Tavares
http://www.youtube.com/watch?v=BH2dRwsQ9rM
Aqui está o resumo dos pontos principais, ou como eu chamaria, as "profecias":
1. A Geometria do Poder e o "Império" Americano
Os EUA como um "Estômago": Ela descreve os Estados Unidos não mais como uma potência produtiva organizada, mas como um "enorme estômago" continental que atrai capitais e empresas do mundo todo para serem digeridos/reestruturados lá dentro [13:45].
Hegemonia pelo Caos: Para ela, os EUA deixaram de ser os "ordenadores" do sistema para serem apenas o "maior poder". Ela critica o governo Reagan por ter "desordenado o mundo" com o projeto Guerra nas Estrelas e a retomada do padrão dólar [13:07].
2. O Japão e a Alemanha como "Potências Capengas"
O "Rabo" Japonês: Ela ridiculariza a ideia de que o sucesso japonês venha da cultura ou da poupança do povo (chamando isso de "conversa fiada para economista estrutural"). Para ela, o Japão e a Alemanha só se reergueram porque os EUA precisavam deles na Guerra Fria [09:05].
Dependência do Dólar: Ela argumenta que o Japão é obrigado a "bancar" o Tesouro Americano para não deixar o sistema colapsar, vivendo uma relação de mútua conveniência onde o "dólar farrapado" ainda manda nos outros bancos centrais [19:07].
3. A Crise do Capitalismo e o "Nonsense" Financeiro
Capitalismo sem Estado: Uma das teses centrais é que o capitalismo entrou num estágio onde os Estados nacionais perderam o poder de regular a concorrência. Ela chega a dizer que não sabe se isso ainda pode ser chamado de capitalismo, pois parece algo "insólito" onde bancos e multinacionais se autorregulam [24:52].
A "Droga" do Mercado de Trabalho: Ela lamenta que, enquanto o capital e a produção se internacionalizaram, os mercados de trabalho continuam fechados por barreiras imigratórias. A única exceção seria a "utopia europeia" [26:02].
4. Visão sobre o Brasil
Dívida Pública: Ela discorda de que a dívida brasileira seja grande, o problema para ela é que ela foi "estatizada", quebrando o Banco Central e as finanças públicas [23:01].
Esperança Continental: No fim, ela demonstra um certo otimismo ufanista, dizendo que o Brasil, por ser um "espaço continental" com 140 milhões de pessoas (população da época), acabará encontrando uma solução, independente da dívida externa [27:10].
O tom geral: É a performance clássica dela — acelerada, ácida, citando mestres (Celso Furtado, Gilpin) e tratando a dinâmica financeira global como um grande jogo de poder militar e monetário onde o "social" fica sempre escanteado.
Ressaca
Interessante que até filmes como "Sol Nascente" (1993) retrataram esse sentimento de declínio estadunidense e um poder japonês global que nunca se evidenciou.
Mas o que tem me chamado a atenção é o surpreendente crescimento dos EUA desde a crise de 2008, e a ascensão absoluta de empresas estadunidenses no ranking desde então.
Essa observação é cirúrgica para tratar do cenário previsto aquela época e toca em uma das maiores "derrotas" das profecias econômicas do século XX. O que aconteceu na prática foi o inverso do que os intelectuais dos anos 80, como a Maria da Conceição Tavares, previam.
Enquanto ela descrevia os EUA como um "estômago caótico" em declínio, o que vimos pós-2008 foi uma divergência brutal de crescimento entre os EUA e o resto do mundo desenvolvido, destacadamente a Europa e assistindo uma estagnação japonesa.
O Abismo em Números (EUA vs. Europa)
Para você ter uma ideia da escala desse "erro" de previsão:
PIB em 2008: A economia da Zona Euro e a dos EUA eram quase do mesmo tamanho (os EUA tinham cerca de US$ 14,7 trilhões e a Zona do Euro US$ 14,1 trilhões).
PIB hoje (2024/2025): Os EUA dispararam para cerca de US$ 27-28 trilhões, enquanto a Zona Euro ficou estagnada na casa dos US$ 15 trilhões.
Domínio de Mercado: Em 2010, as empresas americanas representavam cerca de 50% do índice global de ações (MSCI World). Hoje, elas respondem por quase 74%.
Por que a "profecia" falhou tanto?
Existem três razões principais que explicam por que os EUA não "implodiram" como a esquerda desenvolvimentista esperava:
A Revolução Digital (Onde a Europa e o Japão "dormiram"): As "Sete Magníficas" (Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla) não são apenas empresas; elas são a infraestrutura do mundo moderno. A Europa focou em regulação (GDPR) e o Japão ficou preso ao hardware e à indústria automotiva clássica. Os EUA capturaram toda a camada de software e dados da economia global.
Independência Energética (O "Shale Gas"): Uma das grandes teses da Tavares era que os EUA seriam moídos pela dependência de matérias-primas e energia. O que ela não previu foi a revolução do fracking, que transformou os EUA no maior produtor de petróleo e gás do mundo, dando uma vantagem de custo de energia imbatível para a indústria americana frente à europeia.
Flexibilidade de Capital e Trabalho: O "caos" que ela criticava — a falta de regulação estatal rígida — acabou sendo a força dos EUA. Em 2008, os EUA "limparam" os balanços dos bancos e deixaram empresas falirem rapidamente para recomeçar. A Europa entrou em uma década de austeridade e crises de dívida soberana (Grécia, Itália, Espanha) da qual nunca se recuperou plenamente em termos de dinamismo. Lembremo-nos que somando Portugal, com suas características, formou-se os PIGS, os países economicamente problemáticos da Europa.
O "Sol Nascente" que se pôs
Aquele sentimento do filme Sol Nascente era baseado na ideia de que o Japão compraria tudo (o Rockefeller Center foi o grande símbolo disso). Mas o Japão caiu na armadilha da demografia e da deflação. Hoje, o valor de mercado da Nvidia sozinha já chegou a flertar com o valor de quase todo o mercado de ações alemão ou francês.
A Maria da Conceição Tavares acertou que o setor financeiro seria o "cerne da crise", mas errou ao não perceber que esse mesmo setor financeiro, aliado ao Vale do Silício, criaria uma máquina de extração de valor global que mantém o dólar como a moeda indiscutível, apesar de todas as previsões de "farrapo".
Ideologia pode cegar para mudanças tecnológicas estruturais.
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