terça-feira, 8 de maio de 2012

Das vantagens da compra à vista I



Stephen Kanitz em um artigo propõe um novo mandamento: "Jamais comprarás a prazo".

Eu jamais faria afirmação tão "seca". Inclusive, primeiro ponderaria, como agora está sendo feito, de determinadas compras parceladas em relação a determinados investimentos, para verificar se em cada caso realmente vale a pena a compra à vista (exatamente pois o desconto oferecido, num preço limite apresentado, não vale a pena frente a desmobilização de um capital de um determinado investimento).

Porém, sempre defenderia que uma compra a prazo só tem nexo, "banalmente", para bens com alguma capacidade de retorno, com meu sempre preferido exemplo de uma máquina de costura comparada com uma televisão de mesmo valor. Uma máquina de costura é um bem de capital para uma senhora costureira, uma televisão, apenas um bem de consumo, para qualquer um, excetuando-se os raros casos de ser colocada num bar, por exemplo, para atrair clientes. Mas acredito que os simplíssimos exemplos foram aqui bem entendidos.

Alguns argumentam que o endividar-se produz motivação para o trabalho, visando cobrir o débito (ou "lenga" parecida). Eu perguntaria por qual motivo eu teria de trabalhar a mais devido a ter de aceitar pagar juros adicionais ao preço à vista?

aldoadv.wordpress.com


Como Stephen Kanitz bem alerta, o consumo deve ser a recompensa pelo trabalho, não sua motivação. Aqui, longas leituras dos fragmentos que nos sobraram dos filósofos cínicos (como Diógenes) deveriam ser obrigatórias em nossas escolas. O TER nunca pode ser satisfeito, apenas o SER. E o SER independe do que podemos chamar, pelos parâmetros atuais, de um termo um tanto corrompido, o "consumo".

Mas tem,os sido compelidos à trocar o tempo de continuarmos sem uma televisão (ou com um de 29 polegadas de "tubo", ainda perfeita em seu funcionamento), por uma de 40 polegadas de LCD, AGORA.

Claro que este tempo custa dinheiro, e exatamente pelo que o mercado quer cobrar do dinheiro que tomamos por este tempo.

Vejamos uma compra dita "muito bem feita" de uma televisão de 900 reais em 12 prestações, com juros "módicos" de 1,9% ao mês:


Valor a VistaR$ 900,00Taxa de Juros1,9%
MêsJurosPrestaçãoSaldo
117,1084,58832,52
215,8284,58763,76
314,5184,58693,69
413,1884,58622,29
511,8284,58549,53
610,4484,58475,39
79,0384,58399,85
87,6084,58322,86
96,1384,58244,42
104,6484,58164,48
113,1384,5883,03
121,5884,580,02
Total PagoR$ 1.014,96
Diferença em rel. ao à vistaR$ 114,96


Deixei até um "saldinho de troco" para o cliente.

Comparemos com uma capitalização em uma muito mal remunerada poupança de 0,5% de rendimento ao mês.


Dep. InicialR$ 0,00Taxa de Juros0,5%
MêsRendimentoDepósitoSaldo
10,0084,5884,58
20,4284,58169,58
30,8584,58255,01
41,2884,58340,87
51,7084,58427,15
62,1484,58513,87
72,5784,58601,02
83,0184,58688,60
93,4484,58776,62
103,8884,58865,09
114,3384,58953,99
124,7784,581.043,34
Total DisponívelR$ 1.043,34
Saldo após compraR$ 143,34


Percebe-se que sobrou até para comprar um DVD player de alguma qualidade.

Observe-se também que já ao 11° mês, tem-se o capital com folga para comprar a televisão.

Sem falar que restaram ainda uma diferença de uns 28 reais em relação de "conta corrente" e outra.



Precisa se explicar alguma coisa além de que paciência é só o que necessita-se?


Na próxima blogagem, continuo este tema, em outros detalhes.


Sugestão de leitura


Stephen Kanitz; Compre sempre à vista ; Artigo Publicado na Revista Veja, edição 1742, ano 35, nº 10, 13 de março de 2002, página 20.



Extras

jornalpp.com.br

Não poderia dar noutra coisa, considerando-se, em delírio, que (1) o mercado sempre estará em expansão, que (2) as pessoas continuarão refratárias a achar que ao comprar um bem de depreciação de 20% ao ano, não terão após um ano que desembolsar estes mesmos 20% para repô-lo, que (3) as pessoas continuarão fugindo da realidade em que gastar 2 horas no trânsito custa o mesmo que gastariam se fossem em ideais 20 minutos para seu trabalho apenas considerando-se a distância e a velocidade, que (4) uns 9 reais por dia, uns 270 por mês, por exemplo, serão convertidos em algo minimamente parecido com "economia" quando passassem a ir em seu carro próprio, etc.
Não necessito lembrar que estas diminuições de produção/venda acarretarão demissões, reduções de jornadas (a começar, mesmo sem as demissões, pelas diminuições das horas extras, aquelas que foram acrescidas até para pagar compras feitas a prazo) e todo um "efeito dominó" na economia.

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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Como andam nossos biocombustíveis.


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Conseguimos ser importadores de etanol de nosso mais pretendido cliente, ainda não conseguimos sair da centralização em soja para a produção de biodiesel e pelo mesmo motivo de nem termos etanol suficiente para este ser queimado diretamente, caímos na, diria perturbadora, importação de metanol oriundo de petróleo.

Conseguimos no segmento de hidrocarbonetos, passar a ser importadores de gasolina.

riosvivos.org.br


Recomendo uma leitura, remomorando determinado status que tínhamos ao final de 2010, pela leitura do excelente texto de Adriano Pires, 2010 e os desafios do setor de energia para 2011.

A situação já é perceptível por todos e a apresentação do quadro, na mídia, diariamente:


Algumas curvas apontam já inequivocamente agravamento destes problemas:

Rogério Recco; Produção de cana-de-açúcar está em queda no Paraná - digital.odiario.com 

Enquanto isso, a marcha inexorável no aperto de custos continua:

Roberto Musatti; O DILEMA DA PETROBRAS - unisite.com.br

Deste artigo, destaco a magnífica e simplíssima tabela, que mostra onde se encontra a fonte de muitos de nossos problemas:


Poderia somar:  


blogdoonyx.wordpress.com

Mas a devastadora bomba (percebem o trocadilho infeliz), para mim, está clara neste trecho de um artigo importante sobre o tema:

"Na Feira Internacional de Automóveis em Frankfurt em 2009, entretanto, os carros híbridos, movidos a eletromotores e gasolina, e protótipos de carros com eletromotores chamaram muito mais atenção do que carros com motores flex-fuel. Obviamente os biocombustíveis da primeira geração, como etanol da cana-de-acúcar, são vistos na Europa e na Ásia como uma tecnologia de transição cuja época já terminou antes mesmo de ter sido usada nos automóveis nesses continentes."

Ref.: Gerd Kohlhepp; Análise da situação da produção de etanol e biodiesel no Brasil; Estud. av. vol.24 no.68 São Paulo 2010.

Não é conveniente, jamais, se investir em fábricas de polainas, quando estas estão saindo de moda.



A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais. - Dostoievski

Meu corolário: E o animal político, usa do privilégio da mentira de forma inigualável entre todos os homens.




Extras

I

Claro que a marcha da elevação das despesas do estado não tardaria a mostrar que muitos já percebem para onde rumamos:



E nesse esboroamento da justiça, a mais grave de todas as ruínas é a falta de penalidade aos criminosos confessos, , é a falta de punição quando se aponta um crime que envolve um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem. - Rui Barbosa,1914.

II

Uma amostra banal, jogada aos nossos olhos pela irrefutabilidade de uma clara imagem.

Hinman - Nebraska


Como já disse e repeti inúmeras vezes, não se pode comparar a logística dos EUA com coisa alguma equivalente em nossa terra, e portanto, exatamente como vemos na planilha acima, surgem valores de pesada diferença em nossos custos. 


III

Um gráfico com números massivos e claros mostra mais que qualquer campanha de marketing possa fazer. Certas curvas não ganham determinadas flexibilidades.


Ou seja: Certas metas de produção apresentadas não serão atingidas.

Para entender todo o dilema, a fonte do gráfico acima:


IV


Vamos deixar algumas coisas bem claras:

1) Haver uma enorme reserva de petróleo em determinada posição, não implica que seja possível tirá-lo, tecnologicamente falando, de lá.
2) Havendo a tecnologia, não implica que será viável economicamente pela pressão natural ou artificail a ser imposta ao reservatório.
3) Em sendo viável com um barril a determinado preço, não implica em que seja a outro, menor.
4) Em sendo viável em determinado preço, não implica em que não se tenha danos ambientais causados pelo geológico que tornam a exploração inviável, com riscos de incidentes no tempo.

Para entender isto com detalhes que não trataria aqui:

Luiz Maklouf Carvalho; Multiplicação do perigo - revistapiaui.estadao.com.br

Vazamento de petróleo de um poço operado pela Petrobras na bacia de Santos.
Fonte da foto acima, e já um ótimo artigo sobre o tema: Vazou de novo - www.pick-upau.org.br

Onde destaco: "A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) rejeitou o plano de emergência apresentado pela Petrobras no processo de licenciamento do sistema de produção do pólo pré-sal, na Bacia de Santos."

Mais uma vez, a minha "maldição de Cassandra": Finda um período cinza - Ver "Extras 3)"

Pois bem. Petrobras, que é a "toda poderosa", não tem tal capacidade, especialmente no emergencial, como o teria menores, ainda mais, embrionárias?

V

Paralelamente a todos os problemas com biocombustíveis e combustíveis fósseis que enfrentamos, outras limitações "correm por fora":


VI

Nunca é tarde para mostrar que não sou só eu que percebe que nossa situação, especificamente quanto ao endividamento público, não é como a dos EUA, e o panorama pode ser, na verdade, uma turbulento mar, ainda que na superfície, oculto por pétalas de rosas.
  • Alexandre Schwartsman; Ctrl-C Ctrl-V - rodrigoconstantino.blogspot.com.br - (originalmente, na Folha de SP)
Após uns 20 minutos de Ctrl-C e Ctrl-V, demonstrações numéricas simples e claras do enorme buraco onde estamos enfiados.
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domingo, 18 de março de 2012

Não, nossa dívida não é igual a dos EUA

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Farei este texto sobre o excelente texto de Francisco Castro - blogdefranciscocastro.blogspot.com.br




depositonaweb.com.br


Você sabe de quanto é e como é composta a dívida pública brasileira?

"O governo deve muito e paga muito por sua dívida [...]

Ao final de 2008, o governo em seus três níveis (União, Estados, Municípios, Distrito Federal e o INSS) tinha uma dívida total de R$ 1,74 trilhão. A dívida líquida (que é a dívida bruta menos o que o governo tem a receber, tem disponível em caixa, aplicado nos bancos e as reservas do Banco Central) era de R$ 1,07 trilhão. Em termos de PIB (Produto Interno Bruto), a dívida bruta era 58,6% e a líquida era 36,0%. A dívida pública do setor público é a soma da dívida interna e da dívida externa. A dívida interna líquida ao final de dezembro de 2008 era de R$ 1,49 trilhão, a diferença entre os valores da dívida líquida e a dívida interna líquida é a dívida externa (lembre que aqui estamos tratando apenas de dívida pública). A dívida pública externa do Brasil é negativa em R$ 419 bilhões, graças ás reservas do Banco central que em reais do final de dezembro último era de cerca de R$ 483 bilhões. Assim, a dívida externa pública há bastante tempo que deixou de ser um problema para as nossas finanças públicas, o nosso grande problema atualmente é a dívida interna líquida que corresponde a cerca de 49% do PIB.

A dívida líquida está distribuída da seguinte forma quanto à participação de cada ente: 71,08% é do governo federal (R$ 736 bilhões), -2,98% do Banco Central (- R$ 32 bilhões - o Banco Central tem muito mais a receber do que ele deve), 33,62% dos governos estaduais (R$ 359,6 bilhões), 5,18% dos municípios (R$ 55 bilhões), -10,11% das estatais federais (- R$ 108,1 bilhões – é esse valor que as estatais federais têm a mais a receber ou em caixa e em bancos em relação à sua dívida total), 2,86% das estatais estaduais (R$ 30,6 bilhões) e 0,35% das estatais municipais (R$ 3,79 bilhões). Em 2008, o setor público brasileiro pagou R$ 167,2 bilhões de juros sobre a dívida interna e recebeu cerca de R$ 4,8 bilhões a título de juros das aplicações no exterior.

A dívida pública [...] "

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germanocwb.blogspot.com


Uma comparação da dívida brasileira com a estadunidense é sob vários ângulos de análise e determinados focos otimistas para o Brasil e catastrófica para os EUA, absurda.

A recente ampliação do limite da dívida do EUA foi inferior à sua inflação no mesmo período em que atingiu seu então teto. Ou seja: o valor em dólares da dívida dos EUA teria necessariamente de ser corrigido.

Isso numa moeda que tem se desvalorizado em relação à outras moedas do undo, tanto por questões de simples mercado quanto por ações do próprio governo, injetando quantias gigantescas de dólares em sua economia.

Lembrando que, no jogo da moeda estadunidense, quem manda em tal jogo é única e exclusivamente o seu governo, diferentemente da união europeia.

Stephen Kanitz tratou em artigo exatamente deste ponto que tem passado desapercebido por quem tem apontado até histericamente que "os EUA estão quebrando".

A Crise Americana e o Prof. Luiz Carlos Bresser Pereira - blog.kanitz.com.br
Por último acrescento que no ano de 2011 crescemos 2,7% [www.bbc.co.uk], numa economia, bem avaliada, de um país ainda muito pobre, com toda a margem de crescimento que suas carências internas permite. Os EUA, uma economia madura, com alta cristalização de suas expansões, cresceu 1,7 % [g1.globo.com], com umas das mais baixas taxas de juros de dívida pública do mundo.

A questão fundamental é que nem mesmo o endividamento de alguém ou alguma instituição qualquer pode ser medido em qualidade em relação às suas receitas, nem ao seu lucro, e sim, ao complexo sistema da relação entre todas as suas variáveis econômicas e financeiras.

Explico com exemplo simplíssimo: você pode ter uma dívida grande em relação às suas receitas, mas em compensação, pode ter ainda seu crédito ampliado pela sua capacidade de mais produzir com isso, considerando a confiabilidade que tem-se em seu futuro e capacidades, fora o subjetivo (na verdade) "caráter".

Eu posso ter endividamento baixo em relação às minhas receitas e formação de reservas (saldos ou "lucro") e não merecer tal aumento de crédito pois não gero perspectivas de um "corpo de futuro".

Assim, não podemos comparar uma economia que vende 4 milhões de unidades em curto período de um só produto como o iPhone 4 [g1.globo.com] em pleno "aperto" de 2011 e com previsões de elevação de vendas previstas do iPod na escala de dezena de milhões de unidades [blogs.estadao.com.br] com uma economia que busca manter nível de emprego com manutenção do nível de compras com expansão de crédito e aumentos de isenções ficais num estado deficitário, e isso, com uma das mais altas taxas de juros do mundo.

Observação: claro que produtos da Apple não são tudo em economia, mas obviamente quem compra celulares e tablets, invariavelmente, compra proporcionalmente desde basal comida até finos vinhos, sapatos e roupas, carros e até casa proporcionalmente ao que consome destes bens do tipo "traquitana eletrônica"* e proporcionalmente ao salário que recebe de uma economia que tais proporcionalidades faz girar.

* Observe-se que um mercado consumidor que apenas troca sua "traquitana" anterior, plenamente funcional e capaz, por outra apenas em função de alguns acréscimos e principalmente pelo novo, não pode ser comparado com um mercado que necessita comprar seus essenciais geladeira e fogão.

Estas diversas coisas, comparações de nosso status com o dos EUA, não podem ser feitas, seja em mercado, seja em economia e obviamente, em nossas dívidas públicas.



Extras

I

Excelente blogagem sobre o que há tempos penso sobre as promessas da OGX.

Fábio Portela L. Almeida; OGX: ouro negro ou ouro dos tolos? - opequenoinvestidor.com.br

Nenhum plano de marketing é no longo prazo, mais esperto ou prudente que o mercado. - istoedinheiro.com.br

O que mais me assusta nesta empresa é sua alternância entre notícias de suas descobertas e até já produção, que em meses, são contraditas por novas expectativas e fatos divergentes do já apresentado.

O que caracteriza a solidez de afirmações, visando captar investimentos, é a constância e regularidade numa curva de crescimento, ainda que com inflexões para a redução de receitas ou mesmo o prejuízo.

Claro que não tardou até notícias surgirem, com resultados que já esperávamos:


II

Para aqueles que acreditam que existe algo tal como um almoço de graça:
Subtítulos: COISA DE FICÇÃO - É irreal a presunção dos governos de possuir superpoderes para inflar o crescimento do PIB com incentivos públicos, sem aumentar a inflação

Comentário meu, no artigo:

O que virá é a velha metáfora da “ressaca”, imagem mais que usada pelos defensores da visão da Escola Austríaca quando tratam dos Keynesianos e seus métodos. Um estado que é deficitário, ao jogar-se num desenvolvimentismo, e fomentar consumo e o correlato emprego com base no crédito, não tardará a chegar aos efeitos perniciosos de suas estratégias já destinadas ao colapso na base.
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