sábado, 12 de julho de 2014

Reestruturação Financeira - 2


6. Alavancagem

dealbreaker.com


Definição genérica

De modo bastante amplo, a alavancagem (normalmente dita financeira) consiste na capacidade de uma empresa em trabalhar com recursos (financeiros) de terceiros, sendo estes basicamente os empréstimos, as debêntures, a venda de recebíveis ou o lastreamento de empréstimos com tais recebíveis, a emissão de ações preferenciais, entre outros, de modo a propiciar um incremento de sua geração de caixa.

De outra maneira resumida, segundo Assaf Neto, alavancagem financeira é o “efeito de tomar recursos de terceiros a determinado custo, aplicando-os nos ativos com outra taxa de retorno”.[1][2][3]

Para nossa abordagem, bastará afirmarmos que a alavancagem financeira é tomada de capital para gerar-se mais capital no presente (o objetivo do tomador) em troca de no futuro, devolver-se o capital tomado com certo acréscimo de um custo do dinheiro no tempo (o objetivo do concessor), que são os juros, ou, no caso da venda de ativos recebíveis no tempo, o desconto de títulos, receber o capital pretendido descontado destes mesmos juros - e acrescido de algumas taxas das operações - em tempo presente.

Desconto de recebíveis

O desconto de recebíveis permite a uma empresa dispor de caixa contra suas faturas de vendas antes que o cliente tenha realmente pago. Definamos recebíveis como duplicatas, promissórias (hoje em dia, cada vez mais raras neste tipo de operação), cheques e até futuros créditos oriundos de pagamentos com cartão de crédito, que anteriormente, teriam uma data mais distante, normalmente mensal para lançamentos da totalização dos lançamentos do período, configurando uma característica antecipação do recebível (pois o crédito do cliente é definido pela aprovação do seu cartão na hora da efetivação da compra, e não pela concessão do crédito pelo cedente).

Segundo autores, a operação de desconto normalmente é realizada quando se conhece o valor futuro de um título (FV, valor nominal, valor de face ou valor de resgate) e se quer determinar o seu valor atual (PV).[2][3][4][5]

Exemplificando com números simples:

Valor de face do título: 10.000,00
Taxa de desconto, correspondente  um juro de 3% ao mês: 2,91%
Valor do desconto financeiro: 291,26
Encargos diversos: 50,00
Valor do desconto total: 341,26
Valor recebido: 9658,73

Podemos aqui calcular o valor de um índice de desconto, que ficaria em 0,9658, ou 3,41%. Note-se que este índice é utilíssimo para custos e planejamento do fluxo de caixa, mas não é linear, devido ao valor fixo dos encargos diversos, e portanto, enquadra-se em nossa definição de “custos flexíveis”, considerando-se que só terão um peso pouco significativo como valor fixo para valores de face do títulos altos em relação à média dos emitidos pela empresa, e possuem uma parcela claramente variável em sua composição.[6]

Dentre as antecipações de recebíveis, o desconto de duplicaras, especificamente, é uma forma de empréstimo característica de curto prazo, com o objetivo prioritário de melhorar o capital de giro da empresa e sua posição de fluxo de caixa. Nessa operação, a empresa toma emprestado um percentual do valor de seu conjunto disponível de títulos a receber, que passam a ser a garantia para o empréstimo.

Há questões discutíveis quanto à forma de contratos com empresas de factoring em serem distintos de bancos.[Nota 1] Aqui, consideraremos a factoring e qualquer outro operador numa função de antecipação pelo termo mais em uso no meio jurídico como cessionário, quando adequado. Embora o resultado final, contábil-financeiro, seja o mesmo nos bancos que para a factoring, o acordo financeiro é um pouco diferente, mas fundamentalmente, a operação é e sempre se caracterizará, quando analisamos os fatos posteriores, contábeis, como um empréstimo caucionado, e não como uma venda do recebível, pura e simplesmente.[Nota 2]

Para explicar isso, podemos colocar que certas empresas de factoring exigirão o desconto de uma taxa de formação de reserva para os irrecuperáveis, os devedores duvidosos, onerando o desconto contra o cedente, ou ainda, ao fazer o desconto, amortizarem os valores devidos por sacados ainda em aberto, ou colocarem na negociação a devolução dos títulos não recebidos, que passarão a ser responsabilidade do cedente.

Retornando ao exemplo numérico acima:

Valor de face do título: 10.000,00
Valor recebido: 9658,73
Atraso de 30 dias no pagamento ao cessionário, a juros de 5% ao mês: 500,00
Como o sacado não honrou com tal diferença de débito, estes 500 serão alançados no próximo desconto, que para os mesmo valores, resultaria num valor recebido de 6158,73 (excluamos aqui outros juros deste débito que ficou pendente), deslocando o índice de desconto para 0,9159 ou 8,41%.

Devemos salientar que todas estas operações, conduzidas desta maneira, são importantíssimas de serem analisadas para a manutenção da geração de caixa da empresa,[7] e necessita-se, à menor possibilidade de aproximação de um estrangulamento da geração de caixa possível, de serem barradas judicialmente ou encerrar-se a relação cedente-cessionário, pela simples questão de não poder-se lançar na formação de preço, no giro que conduz à geração de caixa, tais índices.[8]


“Há duas ocasiões na vida em que não devemos especular: quando não estamos em condições de fazê-lo, e quando estamos.” - Mark Twain, O Calendário de Pudd´nhead Wilson (Citada em Bertolo, MATEMÁTICA FINANCEIRA)


Analisemos agora operações de vendas de duplicatas a um agente cessionário que atuará como uma factoring, mas que caussionará certas concessões de crédito de modo um tanto distinto de uma operação venda-título-desconto-capital-recebimento por parte do cessionário.


Antecipação para compras

Já definimos acima uma clara operação de factoring onde tendo-se o título oriundo da venda (uma duplicata) procederemos ao seu desconto. Notemos que em se tratando de uma empresa comercial, poderia existir a garantia de uma venda efetuada (relacionada com uma ordem de compra) e ainda não ter sido efetuada a compra dos itens a serem entregues junto a um fornecedor.

Dado um agente financiador que tenha desenvolvido confiança no cedente, e tenha obviamente interesse em ganhos com a operação (o um tanto difuso conceito de “parceria”), num cenário em que já se tenha a ordem de compra (formalizada ou não), e tendo-se o fornecedor certo, com a capacidade de entrega na disponibilidade de entrega e no prazo adequados, a operação poderia ser feita com o adiantamento do desconto total (sobre o valor quando da emissão da duplicata) como apenas para o valor a ser comprado, ficando o saldo para uma complementação quando da efetivação da venda, aí, como uma operação de factoring normal.

Exemplifiquemos novamente com números simples, sobre o valor total da duplicata produzida:

Valor de face do título: 10.000,00
Prazo total da operação: 45dd, sendo 15 dias da compra, remessa, operações comerciais e entrega da venda.
Taxa de desconto, correspondente  um juro de 3% ao mês: 4,34%
Valor do desconto financeiro: 433,69
Encargos diversos: 50,00
Valor do desconto total: 483,69
Valor recebido: 9658,73
Levando-nos a um índice global do desconto de 0,952, ou 4,84%.

Percebamos que para uma marcação de 50%, para a efetivação da compra, seriam necessários apenas 6666,67 para a compra, o que reduziria significativamente o desconto, e caucionaria o valor tomado, após a emissão do título, com folga para o cessionário.

Antecipação de custos de operação/produção

Se definimos uma operação para compras de mercadorias a serem revendidas e propiciar a geração de um título, poderíamos considerar uma operação análoga que cobrisse os custos de operação (algum frete, por exemplo), fracionamento de embalagens, mudança de apresentação (que inclui troca de embalagens ou acréscimo de outro insumo no embalar, como acrescentar na caixa um componente, ou até uma rápida operação como cortes ou acréscimo de um componente ao corpo do produto, ou operações relacionadas a produção, como a dissolução de certos formulados, ou ainda, novamente como um exemplo, o descasque de amêndoas, ou complexos processos de usinagem e beneficiamento, tudo dependendo da absorção por parte do financiador dos prazos dos ciclos de recepção das matérias-primas e de produção, alé, como no caso anterior, do ciclo comercial, com seus prazos de logística e de efetivo recebimento do título.

Exemplifiquemos aqui apenas pela parte do valor necessário:
Matérias primas: 5000
Operações, incluindo mão de obra, fretes e alguns insumos: 1666,67
Total que deve ser obtido para a operacionalização: 6666.67
Decisão pelo desconto de todo o título a ser gerado, no valor de 10000.
Prazo de totas as operações, desde a compra de matérias-primas até a quitação da duplicata gerada: 66 dd
Taxa de desconto: 5,74%
Valor do desconto financeiro: 574,04
Encargos: 50
Desconto total: 624,04
Valor recebido: 9375,95
Índice global do desconto de 0,9376, ou 6,24%.

Antecipação ao comprador

Esta operação é similar aos casos anteriores, e pode ser em cada um deles desdobrados, mas caracteriza-se por quem faz a negociação é a empresa que está realizando a compra, que busca para seu fornecedor o financiamento de seu capital de giro (factoring digamos clássica) ou os passos de financiar as suas compras (uma ancecipação para compras) pois este tem de fazer uma revenda (como no caso de distribuidores e atacadistas num certo nível, numa cadeia de comercialização) ou num financiamento á produção de seu fornecedor, quando então temos uma antecipação de custos para a operação e/ou produção.

Podemos apresentá-las por meio da sequência “tenho a necessidade e a viabilidade de compra” - “meu fornecedor não dispõe de capital, assim como nossa empresa” - “o torno o cedente da operação”, sendo pois, um novo cliente do ‘factorizador’, que passa a ter nele o cedente e em nossa empresa o sacado.

Algumas considerações

As situações podem ter inúmeras combinações, parcelamentos das operações acima descritas, exigindo apenas a negociação, a construção de confiança, a solidificação pela formalização de garantias, a agilidade na construção dos modelos matemáticos envolvidos, a rígida contabilidade de custos e a busca de proveito para todas as partes envolvidas.


Notas

1. “Art. 296. Salvo estipulação em contrário, o cedente não responde pela solvência do devedor.”[9][10]

Recomendamos a leitura de:

Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva; Alguns aspectos do contrato de factoring na visão jurisprudencial -  jus.com.br

Matheus Moysés Marques Dutra De Oliveira; Ação de regresso no contrato de fomento mercantil - www.jurisway.org.br

2. Recomendamos a leitura da TJ-SP - Apelação : APL 7310700100 SP - CONTRATO BANCÁRIO. Desconto de títulos. Saldo devedor. Cobrança. - tj-sp.jusbrasil.com.br

“Nos contratos de descontos de títulos os juros são calculados e cobrados de início, sem incidência de outros juros, a não ser eventualmente os moratórios, portanto não cabendo falar em anatocismo.”

Anatocismo é a capitalização de juros, o popular “juros sobre juros”.


Referências

1. ASSAF NETO, Alexandre. Finanças corporativas e valor. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2005.
2. ASSAF NETO;; SILVA, C. A. T. Administração do capital de giro. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2002.
3. ASSAF NETO; LIMA, F. G. Curso de administração financeira. São Paulo: Atlas, 2009.
4. Vieira Sobrinho, José Dutra – Matemática Financeira – Ed. Atlas - 1997.
5. DE FRANCISCO, Walter. Matemática Financeira. Editora Atlas.
6. Francisco Quiumento; Custos semifixos e semivariáveis - Uma discussão para uma nomenclatura coerente; Scientia - sites.google.com
7. Adail Marcos Lima da Silva, Renata Edivânia Costa Gouveia; A Importância da análise preventiva do custo efetivo total das operações de desconto de duplicatas em bancos comerciais no Brasil; SEGeT – Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia - www.aedb.br
8. A. Raposo Subtil; Guia prático da Recup. e Revitalização de Empresas - 2ª edição; Vida Economica Editorial, 2013. - books.google.com.br
9. BEBER, Jorge Luis Costa. Contrato de factoring: legalidade da cláusula de regresso. “Revista de Fomento Mercantil”, março 2005.
10. DONINI, Antônio Carlos. “Factoring”: de acordo com o novo Código Civil (Lei nº 10.406, de 10.01.2002). Rio de Janeiro: Forense, 2002.


Ligações externas

Incluindo leituras rápidas para apresentações.

Arlete Caixeta; A Alavancagem Financeira, 2009 - www.administradores.com.br

Alvaro Camargo; Índices de desempenho financeiro de uma empresa, 2009 - alvarocamargo.wordpress.com

Adail Marcos; Análise das Operações de Desconto de Duplicatas em Bancos Comerciais com o Microsoft Excel - adailmarcos.blogspot.com.br

Uma calculadora online para desconto de títulos:
Desconto de duplicatas - www.gyplan.com

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Estratégias para o etanol



Devemos ter em mente que o mercado para o etanol como combustível para automotores existe apenas no Brasil e nos EUA. Os demais países do mundo o utilizam apenas embrionariamente (um caso destacado é a Suécia, que usou inicialmente o caríssimo etanol derivado de uvas, importado da França, substituindo parte do combustível usado no transporte público, subsidiado pela tributação de suas populações urbanas).[1][2][3]


O consumo do etanol como combustível tende a desenvolver-se em outros países na medida que governos optarem pela adição do etanol à gasolina. Nesta aplicação, o potencial de volume de consumo, exatamente por ser proporcional a uma fração significativa do atualmente enorme consumo de gasolina no transporte urbano, aplicando-se eficientes medidas estratégicas.


Um perfil do futuro espectro de consumo de combustíveis para o transporte movido por motores à explosão na União Europeia.[1]


Somente com a medida do presidente George Bush para que os EUA tomassem como meta um corte de 20% do consumo de petróleo projetado para a próxima década, em tal objetivo ser atingido, representaria uma demanda adicional de 130 bilhões de litros de etanol por ano, da qual os EUA produzem apenas 18 bilhões de litros, com a produção brasileira então em volume próximo deste valor, sendo que o restante do mundo é responsável por produzir em torno de 15 bilhões de litros, elevando o total mundial para um valor de 51 bilhões de litros por ano, valor que enfrentaria uma demanda possível 2,5 vezes maior apenas nos EUA.[9]


Para dados mais completos e questões específicas:[4][5][6]




(1) Nos EUA, a mistura de 5,5% em toda a gasolina significa consumo de 30 bilhões de litros de álcool/ano.


Obs.: Para estes dados em planilha, acesse: docs.google.com


Disto resulta, até por motivos estratégicos de cada nação, que os possíveis consumidores de etanol, globalmente, só decidirão pela adição do etanol à gasolina com a certeza de que a oferta, produção, apresente-se com regularidade, com confiabilidade e diversificação por parte dos produtores. Numa situação de que os dois únicos produtores sejam o Brasil e EUA, nenhum país adotará o etanol extensivamente em sua matriz energética, como combustível líquido. No continente sulamericano, Colômbia, Peru, Venezuela e Paraguai aderiram ao uso do álcool combustível.[7]


Disto resulta  o interesse do Brasil no que pode ser chamado de uma ‘globalização do etanol’ como combustível para motores de veículos, requerendo sua padronização e regularização como commodity, sua cotação em bolsas internacionais, com cotações globais, e, sobretudo, embora paradoxalmente, a difusão de sua produção por vários países.


Um acordo de cooperação na área de biocombustíveis, entre Brasil e EUA, é apresentado como envolvendo três importantes pontos:[6]


  • a cooperação para produção de etanol em terceiros países;
  • o trabalho conjunto para melhorar as condições de acesso aos mercados e à produção internacional de países da América Latina e Caribe
  • transferência de tecnologia na área de produção, armazenamento e transporte de etanol.


Deste quadro, apresenta-se que em etanol o Brasil pode apresentar ganhos em todas as frentes, por similaridade, e relacionamento, com sua afirmação como o maior exportador mundial de açúcar, combinando suas excelentes condições climáticas para o cultivo da cana com a tecnologia em seu cultivo e processamento em açúcar, condições que seriam transmissíveis a uma posição como grande exportador de etanol. Aproveitando uma globalização do etanol, poderia exportar sua bagagem tecnológica, tanto no cultivo da cana quanto nas usinas, podendo exportar inclusive as próprias usinas.


Porém, este quadro de oportunidades enfrenta a concorrência imediata da estrutura de fermentação e destilação por parte dos EUA, não tão diversas das de cana nestas etapas, e os investimentos extensivos na pesquisa de produção do etanol a partir de outras fontes, especialmente o celulósico. Nessa atividade, os investimentos dos EUA já alcançaram, nos últimos seis anos, US$ 1,6 bilhão, contra estimados US$ 50 milhões brasileiros.[8]


Já países próximos, como Colômbia e Peru já estão produzindo cana e implantando suas destilarias, sendo que no Peru, uma empresa estadunidense está construindo uma destilaria de grande porte para exportação direto aos EUA, com pretensões de o fazer via duto através do Pacífico, além de investir em cogeração de energia elétrica dentro dos mesmos projetos conjuntos.[10][11][12] Deve-se destacar que muitos países da América Latina já possuem acordos de livre comércio com os EUA e não pagam a sobretaxa sobre o etanol paga pelo Brasil.[6]

Referências


1. Jonas Hofstedt; Ethanol – an excellent fuel for sustainable urban transport -
2. Ethanol-powered buses advance in Sweden, strengthen idea of sustainable urban transport -
3. Biofuel in Sweden - en.wikipedia.org
4. EIA/DOE, Comissão Europeia, FO Licht, Copersucar.
5.  Laura Tetti; PESPECTIVAS DOS MERCADOS TRADICIONAIS DOS PRODUTOS DA CANA-DE-AÇÚCAR; Novembro de 2005 - www.google.com.br
6. LUIZ CARLOS OLIVEIRA LIMA; NELZA JOSÉ MARIA CURAMBIÇUA; ANDRÉ LUIZ MIRANDA SILVA ZOPELARI; ETANOL: INSTITUIÇÕES, MERCADO GLOBAL E COMPETITIVIDADE.; UFRRJ, SEROPÉDICA, RJ, BRASIL. - www.sober.org.br
7. Agroanalysis; Panorama Internacional, fevereiro de 2007, p.36.
8. GAZETA MERCANTIL. Entrevista, 12 de março de 2007, A-6
9. Domestic policy of the George W. Bush administration - en.wikipedia.org
10. Brasil e EUA, a globalização do etanol - g1.globo.com
11. Ethanol Project - maple-energy.com
12. Maple Energy brings 37MW ethanol and electricity power plant project online in Peru - www.renewableenergyfocus.com


Leitura recomendada

  • O Mercado Internacional de Etanol: que papel cabe ao Brasil? - ictsd.org
  • Sérgio Rangel Figueira, Heloisa Lee Burnquist; PROGRAMAS PARA ÁLCOOL COMBUSTÍVEL  NOS ESTADOS UNIDOS E POSSIBILIDADES DE EXPORTAÇÃO DO BRASIL - www.ambiente.sp.gov.br


Extras

sábado, 31 de maio de 2014

Mais médicos. Será?

Algumas contas simples, números claros e um fundamental fato.


O Brasil tem aproximadamente 400 mil médicos, o que para uma população de 201 milhões de habitantes, resulta numa taxa de aproximadamente 2 médicos por mil habitantes (mpmh). Destaquemos que a média mundial é 1,4 , de onde já se percebe que o problema, até por nossa posição em IDH, não é de forma alguma apenas a quantidade de médicos.
As prefeituras tem feito requisições no total de quase 15,5 mil médicos, o que dá 2,8 médicos para cada um dos 5570 municípios brasileiros.

O programa Mais Médicos não pode contar com médicos nacionais, pois apenas seria um deslocamento de médicos, uma distribuição, não um incremento destes.

Mesmo com todos estes médicos sendo incrementados, o máximo que conseguiríamos seria mudar a taxa  para 2,07 mpmh, um incremento de pouco menos de 3,9%.

O máximo de médicos cubanos que são previstos serem incluídos são quatro mil, que propiciariam um primeiro patamar de 2,01 mpmh.

Uma meta do governo é 2,5 mpmh, numa diferença de 0,51 mpmh do valor atual, que implicaria na contratação (formação aqui pouco interessa) de 102500 médicos.

O governo tem uma meta de formação de médicos (antes disto, de vagas em medicina) de 11 mil até 2017, que considerando-se uma média de 5500 (a metade do proposto) pelos próximos 7 ano (a duração do curso) implicaria no máximo em 38500 médicos, desconsiderando a não distribuição nas regiões carentes, e talvez imensamente mais o atendimento em grandes centros urbanos, que já contam com seus problemas. Desconsideremos aqui que médicos se aposentam, e como todo humano, morre, pois a diferença que mostra-se não significativa assim como está já nos basta.

Mas observemos um curioso fato, ocorrido há alguns anos atrás:

PL 65/2003. Autor: Deputado Arlindo Chinaglia, do PT/SP.

Emenda: Proíbe a criação de novos cursos médicos e a ampliação de vagas nos cursos existentes, nos próximos dez anos e dá outras providências.

Os dois primeiros artigos já apresentam o que viria nos anos a seguir:

O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º Fica vedada a criação de novos cursos médicos nos dez anos seguintes à
promulgação desta Lei.

Art. 2º Fica vedada a ampliação de vagas nos cursos médicos existentes nos dez
anos seguintes à promulgação desta Lei.

Mas é praticamente um ponto pacífico entre profissionais de saúde que o problema não é o número de médicos, independente da incapacidade deste programa e seus pretendidos números apresentar sequer uma solução para as metas do governo nestes números simples.

O problema de porquê os médicos não vão para o interior, e nem falemos dos mais remotos grotões deste país, já foi respondido para mim lá no início dos anos 80 por um médico:

-Como que vou querer ir para o interior? Para ter de suturar com o dedo?

Referências

1. Brasil tem dois médicos para cada mil habitantes - www.estadao.com.br


2. Demografia Médica - www.cremesp.org.br

3. População brasileira ultrapassa marca de 200 milhões, diz IBGE - g1.globo.com

4. Médicos estrangeiros seguem sem previsão para começar a atuar no AM - g1.globo.com

5. PROJETO DE LEI N° , DE 2003 ( Do Sr. Arlindo Chinaglia) - www.camara.gov.br

6. Tainah Medeiros; O PROBLEMA DA MÁ DISTRIBUIÇÃO DOS MÉDICOS NO BRASIL - drauziovarella.com.br

7. Marco Aurélio Smith Filgueiras; A solução não é formar mais médicos - www.crmpb.cfm.org.br